Bartolomeu Legrand

Foi um soldado a maior parte de sua vida. Ele lutou muitas batalhas, vencendo algumas e perdendo outras. Viu companheiros de longa data morrerem num milésimo de segundo, numa única explosão mágica, bem como dizimou muitos soldados inimigos. Bartolomeu matou civis também, alguns mereciam morrer, outros apenas tinham de morrer. Na guerra um soldado não escolhe seus inimigos ou mesmo suas batalhas. Um soldado segue ordens, mas essas ordens um dia voltam para te assombrar, roubando seu sono nas noites quentes do verão e te acordando assombrado nas noites frias do inverno. A bebida pode te ajudar a dormir mais tranquilo algumas vezes, mas quando seu corpo começa a se acostumar com a embriaguez, ao que você recorre? Aos deuses? Às drogas? O pingo de dignidade que restara a Legrand o impedira de cair tanto. Um velho soldado tem direito a manter um pouco de seu orgulho, não acha?

Todavia, esse orgulho não impediu que sua vida desmoronasse. Sua esposa o deixou, seus filhos nem sequer olhavam mais em seus olhos. Legrand deixou de ser um veterano de muitas batalhas e tornou-se um bêbado qualquer. Mas para ele isso já não importava mais. Seu passado o atormentaria para sempre e já era tarde demais para redenção. Como ele se desculparia por ter tirado todas aquelas vidas inocentes? Como remediaria todo o mal que causou? Como ele esqueceria o pranto daquele garoto agarrado ao corpo da mãe morta, naquela cela escura da masmorra? Se ao menos tivesse tido a nobreza de libertar o garoto, talvez hoje ele tivesse sonos mais tranquilos, mas o medo o impediu e agora só os deuses sabem o que acontecera ao pobre órfão, trancafiado ali sem nunca ver a luz do sol.

Contudo, são nas horas mais desesperadoras, naqueles momentos em que já não nos importamos com mais nada, que a vida nos prega peças.

Com mais de quarenta verões em seus ombros largos, Bartolomeu conheceu um deus. Claro que isso aconteceu enquanto ele estava embriagado. Claro que ele foi rude e grosseiro, achando que se tratava apenas de um sonho. Mas, quando o dragão platinado tomou sua forma verdadeira e seu rugido fez estremecer os ossos do velho soldado, sua embriaguez se esvaiu completamente e, em seu âmago, Legrand experimentou um sentimento de justiça e piedade que jamais sentira antes.

Bahamut não se comunicou com ele através de palavras. Ao invés disso, ele lhe mostrou uma visão de uma terra devastada e sem vida. Uma visão onde os rios de águas cristalinas foram substituídos por rios de sangue fresco. Uma visão onde criaturas do mal voavam desimpedidas, espalhando crueldade pelo mundo num céu escuro e sem estrelas. Em suas visões, Legrand também viu um sol e uma lua sobre o mar. Três companheiros estavam ao seu lado, mas seus rostos eram um mistério. O Deus dos Dragões queria que ele os encontrasse. Contudo, essa visão era apenas uma das inúmeras possibilidades do que poderia vir a ser o futuro dessa terra. Bahamut estava o recrutando para impedir aquela devastação. E Legrand, mesmo não achando-se digno de ser um campeão de Bahamut, aceitara.

(…)

No outro dia pela manhã, Legrand sentiu algo que há muito não sentia: ebriedade. Era o momento de penitencia na vida do velho soldado. Ele já perdera sua família e a única coisa lhe restava era a sua própria consciência. Talvez ele jamais pudesse desfazer o mal que causou, mas impedir que viesse ao mundo todo aquele mal seria o suficiente para o agora paladino de Bahamut ir para o túmulo sem arrependimentos.

(…)

Foi, muitos meses mais tarde, seguindo uma intuição em sua mente e vagando pelo reino de Sembia, que Legrand encontrou a primeira pista sobre seu destino. Em uma taverna comum, nos subúrbios de uma cidade qualquer, ele encontrou o sol que aparecera em seus sonhos: uma meia-elfa com ar encantador. Ao pôr seus olhos na jovem pela primeira vez, não restara dúvidas em seu coração, ela fazia parte de seu destino.