No meio das formidáveis montanhas de Khazari, em um ponto tão alto que ao olhar para baixo apenas se vê nuvens, um pequeno monastério permanece escondido do restante do mundo. Quase tão misterioso quanto o reino vizinho, Ta-Khat, Khazari também é marcado pelas presenças dos monastérios governados por Lamas. Khazari é conhecido por ser ponto de parada na rota de seda. Mas seus templos, em especial esse, se isolam das miudezas do mundo. Só em situações drásticas enviam emissários ao resto do mundo. Khazari fica a cerca de 1500 quilômetros de distância de Mulhorand, e mais de 3 mil quilômetros de distância de Sembia. Ali, no templo esquecido pela história, um humano de barbas brancas, de idade incalculável, permanece sentado no alto de uma rocha. Ao seu redor, abaixo da rocha, encontra-se seus pupilos. Seu tom de voz demonstra a insatisfação que o Lama não faz questão de esconder.

1. A Morte de Oloniuth

O Lama suspira fundo, e segue em silêncio por alguns minutos. Os pupilos já estão ansiosos. Ele havia prometido contar uma história sobre um de seus pupilos que se ali estivesse, teria muito a ensinar, entre seus defeitos e qualidades. Finalmente, o Lama começa a falar, com sua voz tão baixa que mal pode ser escutada devido ao forte som de vento das montanhas.

“Crianças, escutem a história de nosso campeão, de nosso dedicado monge, que realizou sacrifícios incalculáveis para atingir a iluminação plena. Mas nossa história começa antes do campeão nascer. Começa com a história de um elfo que precisou morrer, para nosso campeão nascer. Seu nome era Oloniuth, um elfo da floresta que vivia nas distantes terras de um reinado chamado Sembia. Era um elfo como outro qualquer, que protegido pelo Mithral de sua cidade, se sentia imune às mazelas da vida. Era apenas um cuidador de macieiras. Um homem comum. Casado com uma elfa também comum: Thaliel. Juntos, viviam seus dias tendo como principal preocupação coletar e lavar frutos. Mas eram tempos sinistros. Na época, a Praga Mágica ainda não havia desaparecido. A magia era, naquela época, bem mais instável do que é hoje.”

“Ao final do ano de 1440, Oloniuth e Thaliel descobriram que teriam um filho. Foi um dia feliz. Mas na vida, tudo muda. O que é bom, acaba, e o que é ruim também um dia passa. Conforme a gravidez avançava, ficou claro que seria uma gravidez difícil. O parto teria que ser auxiliado por magia para que tivesse sucesso. Os dois, vivendo em Myth Drannor, tinham acesso a alguns dos melhores curandeiros do mundo. Mas nem isso bastou. Em 1441, em uma longa noite, Thaliel entrou em trabalho de parto. Os curandeiros foram chamados, e logo compareceram à casa de Oloniuth, que acompanhou cada segundo do procedimento. Os curandeiros fizeram o que podiam. Realizaram magias de cura e rituais para fortalecer Thaliel. Mas, por um segundo, a magia falhou. Imediatamente, os curandeiros passaram dos cuidados mágicos para cuidados médicos. A criança não queria sair do útero da mãe. A única saída era abrir a barriga de Thaliel e retirar a criança. Foi isso que fizeram. Mas no final, nem a mãe nem a criança se salvaram. Ali, Oloniuth também iniciou sua longa jornada para morte. Ver sua amada aberta, sua criança morta, e a magia dos elfos falhando, foi de mais para um homem comum.”

“Os meses seguintes foram meses de desespero e depressão para Oloniuth. Ele não produzia, não comia, não se banhava. Foi visitado por clérigos e magos. Mas o problema dele não podia ser resolvido por ninguém. O coração partido, quando quebra de vez, só pode ser curado pelo seu próprio dono. A maioria nunca consegue se curar. Oloniuth ficou naquele estado semi-morto. Até que um dia, um viajante, vindo do reino de Chin Tung, chegou em Mith Drannor. Naquele dia, o homem daquele reino tão exótico aos habitantes de Myth Drannor, contou as histórias sobre o nosso canto do mundo. Contou sobre os monastérios escondidos do resto da história, tão antigos e tão cheio de conhecimentos. Oloniuth, ao ser avisado dessas histórias, decidiu ir atrás do viajante, e pedir um mapa. E assim, o elfo partiu em sua última jornada. Depois de um ano em uma longa viagem com parcos recursos, ele finalmente chegou aqui, no Templo do Sol. Quando ele chegou, era apenas osso e pele. Um cadáver ambulante. Sua vontade era apenas pó. Tudo que conseguia fazer era implorar por ajuda.”

“Os demais monges decidiram o ignorar. Mas eu, na época, era jovem. Tinha muita energia. E vi nele uma oportunidade de ter meu primeiro pupilo. Conversamos, e ele me contou a sua história. Foi então que eu dei a sugestão. Se as dores dele eram tão pesadas a ponto de o paralisar, ele tinha que tomar uma decisão. Ou as superar, ou abandonar de vez as memórias da dor. Ele optou por esquecer o que não podia suportar. E eu o ensinei, pela meditação, a lentamente suprimir as memórias que o atormentavam. Mas a dor era profunda de mais. Para apagar o trauma, ele acabou apagando todas as memórias que tinha antes de aqui chegar. Aquele homem comum se tornou, naquele momento, uma sombra de uma pessoa. Um corpo a ser por mim completamente moldado. Ao menos, assim eu pensava que seria.”

2. Um Parto de 20 Anos

Quietos, os pupilos continuam a escutar o Lama. Entre uma parte e outra da história, o velho toma pausas. Observa seus pupilos, e respira funda. Parece refletir em como contar a história da forma mais clara e correta.

“Depois que o elfo perdeu completamente sua memória, eu o rebatizei de Ohtli Cipactonal. ‘O Campeão Nascido da Luz do Sol’. De início, ele me perguntava quem ele era, e de onde havia vindo. Sua mente era só confusão e inquietude. Sempre que ele se agitava, eu o mandava meditar, até que se acalmasse. Quando se acalmava, eu o ensinava sobre a ordem e serenidade. Sobre a frivolidade da vida mundana, e a sacralidade da vida espiritual. De nosso eterno dever de defender a ordem, mas principalmente nossa ordem interna. Eu achava que a mente vazia dele o tornaria um pupilo mais dedicado. Mas aquele que não se conhece, progride mais lentamente. Foram anos dedicados só a meditação, reflexão, e ensinamento. Os primeiros 20 anos, ele foi para mim, um peso. Eu, que desde pequeno havia sido declarado Lama, era incapaz de o tornar no exemplo que eu desejava. Mas tomei a dificuldade de o ensinar em uma oportunidade para aprender mais sobre a paciência.”

“Ele sempre foi um aluno esforçado. Mas sempre que passávamos do treino mental para o físico, sua inquietude voltava. Em especial quando ele precisava realizar treino de combate com outros. Muitas vezes, os guerreiros e monges do templo esquecem o quão poderosa são as duas principais armas que uma pessoa carrega: seu próprio corpo e sua própria alma. Muitas vezes, ficamos cegos pelas dores do passado, e desprezamos o nosso próprio poder. Deixamos nossa alma se agitar, e nossas mãos se tornarem espadas. Então, nos tornamos uma máquina de matar sem consciência. Por isso é importante a serenidade. Coisa que Ohtli não tinha. Isso ficou bem claro no primeiro combate que ele travou.”

“Depois de cinco anos de treino, coloquei Ohtli para participar da primeira competição interna de nosso templo. Eu estava certo que ele ao menos demonstraria ser um combatente competente. Afinal, ele já era capaz de desferir boa parte dos golpes iniciais e medianos da Escola do Sol. Na primeira luta, fiquei muito animado. Assim que soou o gongo, ele partiu para cima do adversário, e nocauteou com um único chute, demonstrando precisão física e mental. Mas foi na segunda luta que passei a acreditar que Ohtli jamais seria quem eu esperava. Assim que a luta começou, ele levou uma Pata de Tigre no nariz, mas se aguentou em pé. Em seguida, ele realizou o Vou da Águia do Sol, e acertou seu calcanhar na têmpora do adversário. O sangue se espalhou, e ele havia vencido. Mas ao ver seu próprio pé encoberto de sangue, ele sentou no chão em prantos, clamando para que limpassem o sangue.”

“O que eu não sabia é que, ao sublimar suas memórias sobre a morte de sua esposa, Ohtli não superou o trauma. Apenas o transformou. Da dor constante, o trauma dele se tornou em uma espécie de aversão ao sangue. A partir daquela luta, ele nunca mais foi o mesmo. Nos treinos, passou a desenvolver nojo pelo próprio sangue, e ficava com medo de se ferir. Em vez de progredir, a cada mês, regredia. Depois de quase um ano insistindo, desisti. A partir de então, o coloquei para trabalhar como cozinheiro, enquanto não estivesse meditando.”

“Por mais de dez anos, ele se tornou um assistente impressionante. Sempre disposto a ajudar os demais. Ainda, era um mestre na arte da meditação. Era capaz de passar dias meditando, só interrompendo quando a sede não mais o permitia continuar. Aos poucos, ele se tornou um exemplo para aqueles que não tinham em si a força para unir corpo e alma através dos treinos. Ele mostrava que o corpo e a alma podiam se unir na meditação constante. Ao falhar em meu experimento, acabei descobrindo um caminho que havíamos esquecido. Mesmo que a história dele acabasse aqui, já seria inspiradora. Mas esse não é sequer o começo.”

3. O Trono do Dragão

O Lama continua a contar a história. O dia já começa chegar ao fim, e o sol já baixou para além das nuvens que se vê abaixo do pico onde o monastério jaz escondido. Os alunos, a esse ponto parecem mais confiantes. Parecem entender onde a história chegará. Mas o velho sábio continua a contar, com uma serenidade que não transparece sentimentos.

“No ano do aniversário de vinte anos da morte de Oloniuth e início do nascimento de Ohtli, mais uma vez tudo mudou. No aniversário da morte da esposa de Oloniuth, em plena noite profundo, Ohtli interrompeu um ciclo de meditação. Interrompeu em gritos que mais pareciam o choro de uma criança acidentada. Ele foi rapidamente acudido por outros monges que também meditavam naquele momento. Mas ele não se acalmou. Foi só quando eu cheguei perto dele e toquei no seu ombro, que a calma voltou a habitar a alma daquele que parecia ser um mestre da meditação.”

“O levei para caminhar nas trilhas para o outro lado da montanha. Enquanto caminhávamos, conversávamos. Ele não se lembrava porque havia gritado exatamente. Apenas que, durante a meditação, havia visto coisas horríveis. Sangue, um bebê morto, uma mulher despedaçada. Pessoas aterrorizadas. Ele não conseguia entender as imagens, mas elas causavam verdadeira dor. Eu entendi que ele havia tido uma visão do próprio passado, mas uma visão distorcida. Ou pior, pensei que talvez a história dele fosse mais complexa do que eu imaginava.”

“Caminhamos até o dia raiar. Nesse momento, o monastério já havia ficado para trás ha muito tempo. Sentamos a beira de um abismo, e meditamos juntos. Eu o guiei pela meditação, e juntos, vimos as mesmas imagens. A cena da morte da esposa dele se repetiu diante de mim. Mas, ao dividirmos a imagem, dividimos também a dor. Foi uma experiência horrível, mas uma dor que é dividida entre duas pessoas se torna ao mesmo tempo mais leve, e mais longa. Juntos pudemos ver que a morte da esposa dele havia sido mais complexa do que ele havia me contado inicialmente. Símbolos e pergaminhos permeavam a lembrança. Mas era difícil identificar, pois a lembrança era borrada. De todos os símbolos, reconheci um. Tratava-se de uma imagem do Trono do Dragão, sobreposto à insígnia do Raja Ambuchar, um dos maiores vilões que os reinos de Khazari, Ra-Khati, e Shou Long já viram. Ali, eu percebi que o que atormentava era seu passado, mas também seu futuro. Aquele que havia nos buscado afirmando ser apenas um coletor de maçãs era algo mais. A história da Ambuchar é desconhecida em Sembia. Como ele conhecia aqueles símbolos? Pensei que talvez o viajante de Chin Tung que o indicou nosso monastério fosse mais do que um viajante. E ele fosse mais do que um simples fazendeiro.”

“Mas, seja o que ele fosse no passado, mesmo que ele houvesse vindo ao nosso templo com objetivos que ele não nos revelou, agora ele não era mais aquela pessoa. Era Ohtli. E se ele possuía uma missão inacabada, ele precisava a finalizar para atingir a paz. O único problema é que o Trono do Dragão ficava em Sa-Khoi, capital de Ra-Khati, onde fica o trono do grande Dalai Lama. Entrar naquelas terras significa nunca mais sair. Mas, Ambuchar foi morto em Skarou, a capita de nosso reino. Então, talvez o que ele precisava poderia ser achado lá. Essa era uma jornada que ele precisava fazer sozinho.”

“Naquele mesmo dia ele partiu. E demoraria mais 5 anos até que eu escutasse falar dele de novo. Quando ele retornou, ele me contou algumas de suas aventuras. O que começou com uma visita ao palácio de Skarou, se tornou em uma grande marcha até Kuo Te’Lung, a capital de Shou Lung.”

4. A Longa Marcha

A essa altura, a noite já havia subido. A lua iluminava o Lama. O forte vento tornava difícil aos estudantes entenderem as palavras do Lama. Mas nada disso impedia que o sábio continuasse a passar seu ensinamento.

“Era uma manhã clara. Estávamos na época mais quente do ano, e as montanhas estavam bastante secas naquele ano. Para manter o templo, precisamos buscar alimentos em regiões distantes do monastério. Naquele dia, eu havia decidido andar sozinho, e aproveitar a caminhada para procurar frutas e meditar. Mas o que encontrei foi outro tipo de fruto. O fruto de cinco anos de aventura. Quando eu estava em meio a trilha do sul, vi o que parecia uma miragem. Meu antigo pupilo Ohtli Cipactonal. Como elfo, não havia envelhecido um dia sequer. Eu, por outro lado, já havia me tornado um jovem sábio. Quando o vi, senti de imediato uma iluminação que há muito tempo não sentia.”

“Ohtli não tardou para correr até a mim, e me cumprimentar. Juntos, caminhamos de volta para nosso monastério. E no caminho, ele me contou porque havia voltado. Ele me começou me contando o que havia encontrado na cidade de Skarou: junto ao local onde Ambuchar havia sido derrotado, achou uma pedra com inscrições em élfico. As inscrições eram, segundo ele, uma carta de uma elfa chamada Thaliel. Era a falecida esposa dele. Ele afirmou que aquele nome despertou nele uma profunda dor. Mas ele não parecia lembrar exatamente de quem se tratava. A carta falava de antigos artefatos mágicos, produzidos na época da queda do reino de Imaskar, e que foram usados para sustentar o império de Anok-Imaskar… o império que precedeu o império de Shou Lung. A carta, ainda, falava que Thaliel não podia continuar dali, pois ela estava doente. Amaldiçoada pela antiga magia de Ambuchar. Se ela não se tratasse logo, morreria em breve. Ela apenas via duas saídas: ser mantida com a ajuda dos curandeiros de sua terra natal, Myth Drannor, ou avançar em busca dos artefatos perdidos, que tudo indicava estavam em algum lugar de Shou Lung.”

“Ohtli, sem saber muito bem o que fazer dali, sentiu que talvez a dor dele finalmente passasse quando ele encontrasse o artefato. Talvez fosse destino dele curar Thaliel. Eu pensei que talvez fosse a hora de contar a ele o que havia acontecido, que Thaliel era a esposa dele e já havia morrido. Mas decidi que talvez a jornada dele o tivesse mudado. Então decidi escutar mais da história. Ele me contou que seguiu a viagem pela estrada em direção ao leste. Durante anos peregrinou entre templos e bibliotecas. Sempre vivendo de pequenos favores e ajudas. Depois de muito explorar, encontrou o registro sobre um dos artefatos. Tratava-se dos fragmentos do poderoso Sudário de Dhonas, que foi usado na fundação do reino de Anok-Imaskar. Segundo o que ele havia descoberto, os fragmentos estavam na capital de Shou Lung. Então, ele viajou até Kuo Te’Lung.”

“Quando ele chegou na capital, logo tentou visitar o arquivo imperial onde os restos do Sudário estavam guardados. Mas obviamente foi impedido. Dedicado, ele não desistiu. Uma pessoa quando possui uma missão que considera sagrada, deve permanecer focado nela. Mas deve também estar aberto para não deixar sua dedicação ofuscar sua visão, pois as vezes o caminho mais certo é o caminho indireto. Ohtli, um mestre da meditação, sabia disso. Ele então se ofereceu para trabalhar para o império. Durante dois anos, atuou como membro da guarda de Kuo Te’Lung. Na maior parte do tempo, apenas precisava impedir que arruaceiros tentassem entrar nas propriedades do império. Mas, no final daquele ano, estourou uma pequena revolta na capital. Ohtli precisou reprimir os revoltosos. Então, a sua aversão ao sangue reapareceu. Ele era ótimo combatente, mas nas primeiras horas de combate, após ele ter aberto o crânio de um sublevado, ele entrou em choque. Foi levado para o templo do palácio, para ser tratado. Mas lá, ele entrou em uma espécie de transe. Ele teve novas visões: a imagem de um dragão como ele nunca havia visto antes. Enquanto os curandeiros estavam ocupados com outros feridos. Ohtli caminhou nas direções das criptas imperiais. Andou no mausoléu. Ao caminhar até o salão central do mausoléu, encontrou uma espécie de dragão, não daqueles como os ocidentais estão acostumados. Era um dragão sem asas, com juba colorida, e escamas cinzas alaranjadas: um Pan Lung. Um dragão guardião celestial. Mas o dragão estava lá e não estava. Era como uma projeção astral. O Dragão então o cumprimentou, e disse que o esperava. Se apresentou como Phan-Pon-Un, o Guardião do Arquivo Secreto do Imortal Chih Shih.”

“Ohtli se ajoelhou, e pediu humildemente acesso ao arquivo, pois ele estrava atrás do Sudário de Dhonas. Phan-Pon-Un, no entanto, não lhe deu a permissão. Ele disse que já sabia que Ohtli viria, mas que o que ele procurava, já não lhe serviria. Que o mal que ele buscava combater era apenas a anunciação do mal que um dia teria que enfrentar. Era no futuro, e não em seu passado, que estava a resposta. Mas para enfrentar o futuro, antes era necessário que ele revisitasse o túmulo daquela que havia partido. Era necessário que ele retornasse ao motivo do início de sua jornada.”

“Por isso ele havia retornado até nós. Na verdade, ele pouco se lembrava de antes da vinda ao templo. E após anos de viagem, suas memórias e suas visões começavam a se confundir. Mas já era hora dele enfrentar a sua própria história. O problema é que uma memória suprimida só pode ser redescoberta pelo dono da memória. Então, eu disse a ele que se era voltar ao início de sua jornada que ele queria, ele precisava ir a Sembia. Essa foi a última vez que o vi em vida. Mas eu ainda receberia algumas notícias de sua jornada para recuperar seu passado e mudar o nosso futuro.”

5. O Retorno a Myth Drannor e o Despertar do Sol

O sábio Lama continua a história. A noite já atingiu seu ponto mais gélido, e os alunos continuam a escutar, se esforçando para aguentar o frio congelante. A história é intrigante, e todos os presentes, do Lama aos estudantes, parecem imersos na narrativa.

“A primeira notícia que eu recebi de Ohtli foi uma carta que ele me enviou. Nela ele contava sobre a chegada em Myth Drannor. Ele descreu uma cidade espetacular, protegida e fundida com a própria floresta. A vida ali parecia ao mesmo tempo agitada e pacata, em um misto de intensa magia e longa reflexão dos habitantes. Embora fosse a cidade onde ele havia passado boa parte da vida dele, tudo era novo para Ohtli.”

“Os anos de viagem, as cicatrizes, a mudança do corte de cabelo, e até de seu porte físico, o tornaram irreconhecível para seus velhos conterrâneos. Ao menos para maioria. Após uma semana procurando por informações, ele finalmente encontrou Nilianiel, irmã de Thaliel. O encontro foi marcado pela surpresa de ambos. Nilianiel acreditava que nunca mais veria aquele que ela conhecia como Oloniuth. E de fato, nunca mais o encontrou. Ohtli tinha muito de Oloniuth, mas era, depois de anos de treinamento e aventuras, uma pessoa completamente diferente. As primeiras horas de conversa dos dois foram difíceis. Eram dois estranhos, mas que tinham algo em comum: Thaliel. Essa foi a primeira vez que Ohtli soube que Thaliel havia sido sua esposa. E foi a primeira vez que Nilianiel soube que sua irmã havia viajado a terras tão distantes. Para ela, Thaliel apenas havia passado alguns anos morando em uma vila ao leste de Sembia. Mas a maldição explicava muita coisa. Desde que havia voltado para Myth Drannor, Thaliel se mostrou uma pessoa mais frágil, e vivia pedindo ajuda dos curandeiros. Nilianiel nunca soube o porquê. Até aquele momento.”

“Depois de muito conversarem, Nilianiel levou Ohtli até a árvore sob a qual Thaliel foi enterrada. Ali, Ohtli sentou e meditou. Durante aquela meditação, Ohtli pode ver o sorriso daquela que um dia havia sido sua esposa. Algumas de suas memórias pareciam voltar. Mas elas eram fragmentadas. A dor que ele sentia sem saber de onde, foi completada com uma espécie de felicidade. Quando ele finalmente sentiu aquela felicidade, que ele não havia sentido desde que chegou em nosso monastério, algo incrível aconteceu. O próprio corpo de Ohtli se iluminou. De suas mãos e pés surgiu uma energia celestial incrível. O que ele nunca havia conseguido fazer durante nossos treinos, canalizar a energia do sol, ele finalmente atingiu.”

“Quando ele brilhou, Nilaniel interrompeu sua meditação. Esse tipo de interrupção, enquanto uma pessoa recebe uma iluminação, é algo terrível. Toda a energia positiva que ele começava a receber dissipou. E a felicidade foi substituída pelo vazio. As memórias que ele recuperou se tornaram mais uma vez nebulosas. Ele lembrava de ter as recuperado, mas não lembrava mais os detalhes. Mesmo assim, nos dias seguintes, Ohtli notou que algo estava diferente. Treinando, ele conseguiu novamente canalizar a energia radiante. Ainda, ele sentiu que aquele grande desespero que lhe tomava quando ele via o sangue foi substituído por um incomodo forte, mas suportável.”

“Se no nosso templo Ohtli Cipactonal nasceu, foi no túmulo de Thaliel que ele finalmente se tornou um adulto. O sentimento mais importante que alguém pode ter, é o de se tornar inteiro consigo mesmo. Mas aquela iluminação ainda estava longe de ser o destino final de Ohtli.”