1. I’m Thou, Thou art I (Eu sou tu, tu és eu)

A lua brilhava através da janela iluminando as feições da jovem sentada no baú aos pés da cama e lançando um brilho tênue na sala, enquanto a música suave preenchia o espaço. Os acordes encaixavam-se em perfeita harmonia transformando a balada em uma canção capaz de derreter até mesmo o pior dos corações.

Eram quase três da manhã, mas sua melodia não incomodava os demais ocupantes da taverna. A maioria deles estava lá embaixo bebendo e festejando. Quanto àqueles que estavam no andar de cima… Deviam estar em sono pesado ou precisando de paz, sua música não os incomodaria em nenhuma das duas hipóteses.

Ela chegou ao final da melodia e repousou o instrumento no colo. Seu olhar focou nos dois homens brutos amarrados no chão:

— Sabiam que não é educado entrar no quarto de uma dama? Especialmente se não foram convidados…

— Sua vadiazinha, o que diabos é você? — Perguntou o que tinha entrado primeiro, um cara robusto de cabelo cor de cobre.

Ela inclinou a cabeça e suas pernas balançaram no ar.

— Ah eu? Eu sou um pouco de elfo — ela levantou um dos dedos — Um pouco de humano — outro dedo — um pouquinho de lua — outro — e por fim, um pouquinho de sol. —Ela ficou olhando para os quatro dedos levantados e abriu um sorriso.

Indiferentes à animação da garota, eles começaram a se retorcer e esbravejar:

— Solta a gente! Juro que vou fazer picadinho quan…

Uma batida suave na porta interrompeu o que o cara estava dizendo. Passei pelo lado dos trogloditas avisando que se eles dessem um pio, os faria dançar nus na praça da cidade e fui atender.

Abri a porta e me deparei com o guerreiro em armadura completa que tinha visto lá no salão alguns minutos atrás.

— Eu ouvi gritos… — Ele pareceu um pouco sem jeito — Ãh… vindo dessa direção… Está tudo bem aí, moça?

O cara parecia durão, mas seus olhos eram gentis e as rugas talhadas pelo tempo demonstravam que ele não era insensível.

Que fofo se preocupar comigo!

— Tudo certo, senhor. Eu só estava tentando praticar uma canção, mas meu irmão sempre me disse que sou péssima nisso, sabe?

Ele ergueu as sombracelhas:

— Podia jurar que eram vozes masculinas, senhorita.

— Ah, bem… Minha voz fica um pouco mais grossa quando bebo e sou realmente um desastre cantando.

Sabia que sempre que meu pai achava plantas murchas nos vasos, ele dizia “Filha, já não disse para não cantar perto das plantas!”? — Usei a minha melhor imitação da voz grave do papai e sorri sem jeito.

O homem também sorriu, me disse que se chamava Bartolomeu Legrand e me avisou que se precisasse de ajuda, estaria a apenas alguns quartos de distância. Agradeci pela oferta e quando seus passos pesados ecoaram no corredor de madeira, fechei a porta.

Me virando para meus convidados, abri meu sorriso mais maligno:

—Agora, rapazes, o que eu vou fazer com vocês?

Meia hora mais tarde…

A garota estava abaixada diante dos dois homens (agora adormecidos devido à sua canção mágica) e avaliava seu trabalho em elaboração.

— Hmmm… Talvez um pouco mais de verde aqui? – ela mergulhou o dedo no pigmento e passou levemente sobre a face do cara de cabelo vermelho.

— Melhor… Melhor… Agora, um pouco de cor nas faces e…

— Ei Sash, finalmente te encontrei! Achei que ia ter que te esperar até o inverno derreter. O que é que você está aprontando aqui em… – A voz animada de seu irmão se interrompeu no mesmo instante — Cima. Vou querer saber o que está acontecendo?

— Ei, Luff! Olá! E não, provável que não. Desculpa, não te ignorei de propósito. Foi a música.

— Preciso me preocupar?

— Com eles? Não tenho certeza… Comigo? Definitivamente não. Desde que você se foi, eu aprendi uma coisinha ou outra a respeito de como me defender.

Mostrei meu bíceps magrelo de forma orgulhosa e ele riu. Contornando nós três ( eu e minha obra de arte no chão), sentou-se na cama, puxou uma maçã e começou a mastigar ruidosamente. Retomei o que estava fazendo antes e ele ficou ali me observando trabalhar.

Esse tinha sido o nosso tipo de conexão desde sempre. Em muitas vezes, um sentia o que o outro sentia, se ele se ferisse, eu saberia e vice versa. Nossa comunicação não verbal deixava muita gente maluco, menos os nossos pais.

Nossos pais sempre nos entenderam e aceitaram. Como não poderiam? Somos a combinação perfeita deles, mas também algo a mais, algo especial.

Uma semana antes eu estava passando por aquela cidade , Sembia, enquanto procurava por ele e senti que era ali que deveria estar, por isso, esperei.

E não é que hoje à noite ele surgiu bem diante dos meus olhos?

— Posso pelo menos saber o que esses miseráveis fizeram para merecer isso?

Provável que se eu disser a verdade completa, o problema vai ser gigante.

Meu irmão era de longe o mais cabeça quente de nós dois. Não! Não se engane, ele não é uma pessoa ruim, ele só tende a se exaltar muito rápido. Papai diz que Luff é igualzinho à mamãe quando a conheceu, que ela por motivos mínimos descia a porrada nele.

Sem me concentrar muito, consigo reviver exatamente sua voz calorosa quando acrescentava depois de receber um olhar severo: “Mas eu bem que merecia, viu?”.

Quanto a mim, só posso concluir que puxei a ele. Sempre me disseram que elfos do sol são arrogantes e blá blá blá, mas acho que não sou. Papai também não é. Deve ter algo a ver com a coisa de sermos ambos apenas meio elfos? Sei lá. Tanto faz também.

— Oiiiiiiiiiii, Faerun chamando! O que você vai fazer com esses caras?

— São piratas, no pior sentido da coisa. Estava pensando se deveria devolvê-los.

— Por mim tanto faz. Mas talvez a gente possa usar eles.

Uma interrogação enorme deve ter aparecido na minha cara, porque ele começou a explicar em tom grave:

— Eu tenho umas coisas para te contar…

O que poderia ser? O tom realmente estava me preocupando.

— Desembucha!

Ele me contou como seu mestre o tinha mandado em missão e que esteve lá em casa. Que quando estava prestes a voltar para a Ordem, viu chamas no céu e logo depois um cara, um tal de Fafnir, apareceu e disse que Campos Dourados tinha sido destruída! Não só isso, mas um mal ancestral tinha se erguido novamente e que havia uma profecia sobre como o sol, a lua e a terra se uniriam para deter esse mal. Aparentemente nós fazíamos parte dela.

Aproveitei e expliquei que antes de os caras terem até mesmo invadido o meu quarto, eu já tinha usado a minha magia para descobrir quem eram e quais suas intenções e que eles eram piratas!

Acho que esse tal de Fafinho fumou erva de gato.

— Sash! Fafnir é o maior herói do Enclave!

— Certo, certo. Mas o que vamos fazer com os piratas?

— Meu mestre me deu um mapa. Piratas são bons com eles.

— É. Vale a pena tentar. Mas antes disso, queria te apresentar alguém.

Ele pareceu em dúvida.

— Quem?

— Um guerreiro.

Ele sorriu malicioso:

— Minha irmãzinha tem um namorado.

— Shhh. Não é isso. O conheci hoje antes de você chegar e pareceu um cara decente. Tava até preocupado comigo. Achei fofo.

Ele sorriu:

— Então vamos encontrar esse tal guerreiro “fofo” e depois parece que temos uma viagem para fazer. Me parece um plano. — Ele falou animado — Deixa a parte da negociação com o pirata comigo.

Amarramos e amordaçamos os marujos de maneira que nem mesmo um ladino escorregadio conseguiria escapar e fomos para a porta, assim que cruzamos, algo me ocorreu:

— Ah! Luff?

— Sim?

— É bom te ter de volta.

— Também estou feliz de estar de volta. — Ele me deu seu sorriso maroto e se mandou.

Algumas semanas atrás eu tinha saído de casa. A razão? Senti a ligação com meu irmão desaparecer. Em um momento ela estava lá e no seguinte, puft!, se foi!

Nós somos gêmeos, sabe. Idênticos, ou quase.

Temos personalidades beeeeeem distintas, assim como as aparências. Talvez isso seja pelo fato de eu ser um meio elfo do sol (saí ao papai) e ele um meio elfo da lua, pois puxou à mamãe. Sabia que isso podia acontecer? Eu não, mas o papai dizia com um sorriso todo orgulhoso que é raro, mas acontece, e que nós somos a prova.

Diante desse argumento, quem sou eu para discordar?

Ah sim, voltando!

Temendo que algo ruim tivesse acontecido com o Luff, juntei apenas o essencial em uma sacola, meus estimados instrumentos, um pouco de dinheiro e comuniquei aos meus pais que iria partir.

Eles ficaram tristes, é claro. Mas entenderam.

Afinal, eles sempre entendiam.

Um em dois. Dois em um.

Eu sou tu, tu és eu.

Esses somos nós.

E sempre foi assim.

2. Um Desastre Perfeito

“Um presente dos céus, o segredo perdido. Duas almas em uma, uma alma em duas, Cores cintilantes que demarcam o começo da derrocada.” — Trecho de uma canção élfica popular.”

Nós nascemos em Cormanthor, mais especificamente no Vale do Arco. Um lugar muito bonito que dizem ter sido uma cidade élfica que foi deixada para trás quando nós, digo, eles, se mandaram pro descanso eterno.

Uau, né? É, eu sei.

Nossos pais, Oghrid Erendann e Kalyssa Faenya, ex aventureiros, agora aposentados, resolveram parar por ali e abrir o Porco Voador, nossa taverna, e foi lá que depois de alguns meses nós nascemos.

Mamãe estava com muita dificuldade durante a gravidez e Papai vivia por aí arrancando os cabelos de nervoso. No dia do parto ficou claro o porquê: Eram duas crianças!

É claro que o Luff, sendo como é, foi o primeiro a sair. O meu irmão até para vir ao mundo não teve paciência de esperar!

Nossa infância não teve nada de extraordinário, algo que fosse “ó mas que coisa! Não?”.

A não ser que você leve em consideração o fato de que muiiiiiiiiita gente nos olhava esquisito por causa dos nossos olhos. Deixa eu explicar: Eu e meu irmão temos olhos iguais, e os dois de cores esquisitas (tem um nome bizarro para isso, papai me disse, mas eu esqueci).

Meu olho esquerdo é dourado, o direito prateado e os do meu irmão são invertidos de lado, porém nas mesmas cores.

Alguns desviam do nosso caminho dizendo que somos amaldiçoados, outros nos davam doces dizendo que isso era uma benção. Eu? Estou pouco me lixando. Olhos são olhos, dã.

Crescemos felizes, sempre sob a supervisão severa e o amor incondicional dos nossos pais. Eles nos ensinaram tudo que deveriam: Coragem, compaixão, amor, honra, enfim… Isso aí.

Nossa mãe, sempre foi muito habilidosa e atenciosa. Ela basicamente administra a taverna. É ótima com números e muito organizada.

Já nosso pai, ah, ele tem as melhores histórias e é um gênio da cozinha.

Juntos ele são uma combinação perfeita. Um time incrível.

O mais hilário disso tudo é que seu encontro se deu pelo mais puro dos acasos. Ou eu deveria dizer desastre?

Veja bem, papai, ao que tudo indica é um ótimo guerreiro, mas possui uma falha fundamental: Ele consegue se perder até dentro de suas próprias botas!

É sério!

Por diversas vezes, eu saía com ele para catar ervas, só para me dar conta que em segundos ele desaparecia! Isso era francamente irritante. Desde pequena tive que aprender a me guiar por aí, para poder encontrar o papai e levar nossas bundas de volta para casa.

Pelo que ele conta, ele era um jovem meio elfo, na flor da idade que recém tinha se tornado aventureiro e acima de tudo arrogante como um cavalo premiado. Em um belo dia, discutiu com o grupo com que estava viajando sobre a melhor rota a tomar e decidiu que seguiria a que tinha escolhido, se separando deles.

Preciso dizer que ele se perdeu?

O fato é que ele se perdeu e feio. Lá pelas tantas rolou colina abaixo e deu de cara em uma árvore, o que o deixou desacordado por dias!

Quando acordou, ele disse que a primeira coisa que viu é que tinha uma ninfa cuidando dele.

Ninfa que nada. Era a mamãe.

Ela estava viajando com um grupo do enclave (é assim que o pessoal da ordem a que ela pertence se chama) e encontrou o infeliz desmaiado. Como não se sentiu bem em deixá-lo lá, cuidou dele.

No começo eles não se davam bem. Nada bem, na verdade.

Papai era arrogante e levou vários cascudos até aprender alguma humildade.

A única coisa que sei é que em algum ponto do caminho eles se apaixonaram e, bem, aqui estamos nós.

3. Uma Estranha Conexão

Desde cedo, eu sempre pendi mais pro lado do papai. Adoro as histórias que ele conta e, apesar de carregar todas gravadas a ferro na memória, não consigo resistir a ouvir outra vez, e outra… E não sou só eu tá? Ele diverte todo mundo com suas aventuras inusitadas e desencontros terríveis.

Por isso, desde pequena eu soube que queria ser como ele. Queria viver muitas histórias e levar alegria onde quer que fosse.

Já meu irmão?

Vish! Ele é o contrário. Ainda muito jovem demonstrou uma enorme capacidade para aprender magia, e isso fez com que mamãe decidisse que, quando a hora chegasse, ele iria treinar com o Enclave assim como ela tinha ido.

Fora essa diferença básica, nós éramos como unha e carne, sapato e sola, açucar e cárie… Você entendeu.

Sempre cúmplices, aprontamos todas que conseguimos.

Ah, foi uma infância maravilhosa!

Nosso elo (a coisa de ser gêmeo, sabe?), fazia com que a gente sempre se entendesse. Às vezes até sem precisar falar. Se ele estava triste, eu saberia e vice-versa.

Nunca me esqueço de um belo dia em que estava bem feliz ajudando o papai com os copos. A gente devia ter uns… doze anos naquela época.

De repente senti uma dor gigante na minha mão. Um choque que a fez formigar e passou logo em seguida, mas foi o suficiente para me fazer derrubar o copo. Ali, olhando para aquele monte de cristais espalhados, eu não tive dúvida do que tinha acontecido.

— Pai, preciso ir.

Ele só assentiu e indicou com a cabeça o pote de unguento. Peguei e me mandei a toda velocidade e não demorei a encontrar Luff no celeiro.

Quando me viu, ele escondeu a mão.

— Ei Sash! Achei que ia ajudar o pai com os copos…

— Mão. — Demandei.

— Nem ideia do que você está falando.

— Sua mão, Luff. Me mostra.

Ele suspirou e me mostrou a mão ensanguentada. Limpei com um pano limpo e água e apliquei unguento igual a uma cachoeira, não sem que ele fizesse caretas o tempo todo. Mas para o mérito dele, ele não chorou.

Eu teria.

Depois ele me explicou que um dos nossos cavalos se assustou com uma cobra e puxou a corda da mão dele, e isso a tinha deixado assim.

Não entenda mal, não é que quando ele se machuca, eu me machuco também, não. Mas às vezes eu sinto. É rápido, mas sinto.

Já os sentimentos, nós compartilhamos. Mas não é tudo. É uma coisa esquisita de definir.

Não é como se eu sentisse desejo quando ele sente, por exemplo.

Credo, Faenya me livre!

Mas alguns, se muito fortes, escapam pelas beiradas. Em especial a alegria, o medo e a tristeza.

Lembro como se fosse ontem, quando soube que a hora dele de partir se aproximava. Um misto de alegria e tristeza e medo me invadia constantemente e eu sabia que esses, ah, esses não eram meus.

Isso foi mais ou menos um ano depois do episódio com o cavalo. Contávamos com uns treze anos nessa época.

Uma noite ele estava sentado na janela observando a lua e parecia abatido. Logo depois descobri o porquê: Ele tinha que ir, mas estava hesitante em nos deixar. Também tinha certo medo de as coisas não darem certo lá.

Conversamos e, depois de garantir que ainda estaria aqui quando voltasse e que sempre trocaríamos cartas, ele parecia mais em paz.

Quanto a dar certo ou não. Disse que ele é filho de um pessoal foda para caramba e meu irmão.

Não tinha como dar errado.

Ele me deu seu sorriso, aquele que eu tanto amava.

Logo em seguida, me presenteou com uma Ocarina finamente esculpida em pedra branca, decorada com notas musicais douradas e disse que era melhor que eu estivesse mestre em tocá-la quando voltasse.

Partiu no outro dia e não nos despedimos. Não era uma separação permanente, um adeus não fazia sentido.

Anos se foram, as cores das folhas mudaram muitas e muitas vezes, as flores nasceram e caíram, e como prometido as cartas iam e vinham.

Eu acompanhava orgulhosa o desenvolvimento de meu irmão e enquanto isso continuei aperfeiçoando minha arte. Já não era mais um menininha deslumbrada pelas histórias do pai.

Se aproximava a hora de viver as minhas próprias.

Um dia as cartas pararam e então a presença de meu irmão sumiu.

O resto? O resto você já sabe.