Em Busca do Arsenal Élfico

Após todo aquele alvoroço com os caras que acharam que levariam a melhor sobre Sasha e depois de Luth ter contado a ela tudo que ouviu de Fafnir, ela lhe disse que estava feliz de estar junto dele novamente, mas que precisam de ajuda se realmente querem fazer algo sobre aquela lenda, e que talvez ela conhecesse alguém que poderia lhes ajudar.

No começo Luth até caçoou dela, dizendo que seria algum tipo de pretendente a namorado ou coisa do tipo, mas Sasha falou que não era nada daquilo e lhe contou sobre o tal cavalheiro de armadura que se ofereceu para ajudá-la quando ouviu o barulho que ela estava fazendo e de como ela o dispensou com uma desculpa esfarrapada sobre cantar mal e fazer vozes mais graves. Da forma como ela costumava cantar, era compreensível que o homem tivesse acreditado naquilo. Ou que algum monstro do além tivesse invadido o lugar.

Sasha levou o irmão até o tal cavalheiro e, apesar de Luth imaginar um jovem galanteador querendo se aproveitar da beleza dela, se surpreendeu quando viu suas rugas e seu cabelo grisalho. Com cerca de quarenta invernos em seus ombros largos e um semblante de quem já viu muitas batalhas, o homem, embora tivesse uma expressão tranquila, tinha um jeito de quem tinha sangue em suas mãos. Pelas vestimentas e jeito de falar, era fácil intuir que ele já foi um militar algum dia. Todos sentaram à mesa após as apresentações e Luth, como de costume, ofereceu-lhe uma bebida, a qual o homem prontamente recusou.

Seu nome era Bartolomeu Legrand e ele lhes disse que foi um soldado a vida inteira, mas agora estava numa espécie de missão divina. Ele contou aos gêmeos que Bahamut apareceu em seus sonhos e lhe mostrou uma visão, da qual eles faziam parte, aparentemente. Se outra pessoa tivesse contado essa história para Luth, com certeza ele ficaria com a sobrancelha arqueada, mas Legrand não parecia aqueles religiosos lunáticos e falava com uma convicção perceptível, então é difícil dizer. Contudo, se sua história for verdadeira, uma calamidade vai descer sobre o mundo em breve, e não era hora de se preocupar com outras coisas.

Enquanto o grupo conversava, era possível perceber que Legrand lançava alguns olhares na direção de Sasha, mas era mais algo fraternal e sem qualquer malícia, como se ele estivesse olhando para a própria filha. Apesar de Luth se mostrar um tanto quanto intrigado com aquilo, lembrou que Arn sempre lhe disse que velhos soldados carregam fantasmas de seu passado até o túmulo e, muitas vezes, além dele. É provável que este seja o caso, mas provavelmente só o tempo dirá.

No momento em que todos se sentaram à mesa, com o ambiente mais claro, Legrand encarou Luth e então seu olhar correu para o de Sasha ao seu lado e novamente para Luth, o qual levantou uma sobrancelha questionadora. Os gêmeos já conheciam aquele olhar, mas a idade os ensinou a relevar esse tipo de situação, mas para surpresa deles, aquele olhar não era de julgamento ou de preconceito, mas sim de alguém que encontrou algo que buscava. E talvez, por mais que ainda não saibam, eles talvez tenham encontrado o que buscavam, principalmente depois de Legrand dizer a eles que Bahamut o guiou até aqui. Talvez ele fosse uma das pessoas que eles precisavam encontrar. Luth contou a Legrand sobre quem eram, de sua missão, ocultando algumas partes obviamente, afinal ele ainda não estava certo se deveria confiar nele.

Embora de certa forma satisfeito, Legrand pareceu bastante impressionado com aquela coincidência toda, e Luth mais ainda. O velho sempre lhe dizia que coincidências não existiam, mas sim que não enxergávamos a verdade por trás delas ainda. De toda sorte, Legrand disse que sentia em si a vontade de seu deus o guiando a ajudá-los, então o grupo decidiu que iriam viajar juntos, afinal seria uma longa jornada e uma espada a mais é sempre bem-vinda.

(…)

Luth explicou a eles, então, que se quisessem seguir nessa missão, teriam que conseguir um barco para chegar lá, pois havia instabilidade nos Vales, logo ele não achava seguro seguirem por terra nesse momento.

Seria melhor chamar o mínimo de atenção possível, por isso viajar pela água seria perfeito: ninguém se metia com os barcos que iam para os portos da Corte Élfica ou da Colina Longínqua. Mas, para passar por aquelas águas sem problemas, o grupo precisaria de um atravessador que se misturasse bem e nada melhor para isso do que um pirata.

Apesar de Luth não gostar de piratas, eles sabem negociar por algo de interesse deles e, sabendo que os portos daquela região até Cormanthor estavam tomados deles, mesmo que o grupo chegasse lá em outro barco, poderiam ser facilmente notados ou mortos, mas ninguém desconfiaria de um grupo que chegasse em um barco com eles, pelo menos é o que Luth achava. As lições com o velho começavam a mostrar alguma utilidade prática.

Sash lembrou que o grupo tinha de dar um jeito naqueles caras que a importunaram. Segundo informações que ela obteve deles, eles eram piratas, então veio na mente do grupo algo que, apesar de arriscado, poderia dar certo.

Pedimos que Bartolomeu contasse um pouco sobre as organizações da região, principalmente as que mantinham a ordem no local. Ele falou então sobre os Corvos de Prata, uma antiga ordem de aventureiros experientes que, nos últimos tempos, estavam sendo utilizados por um nobre local para realização de missões especiais. Além disso, alguns líderes locais os contratavam a fim de manter a ordem, inspecionar navios suspeitos e realizar missões perigosas.

Aquilo nos deu uma ideia incrível. Combinamos então que Bartolomeu e Sash ficariam ali enquanto Luth iria ao encontro do capitão deles para tentar barganhar.

(…)

Apesar da taverna ser em Ordulin, Sasha descobriu que o capitão deles estava com navio atracado em Yhaunn para recrutar novos marujos nas áreas pobres da cidade, mas tinha vindo a cidade de Ordulin com uma comitiva para negociar com um nobre local.

Luth procurou por ele pela cidade e, com as habilidades que conseguiu em seu treinamento e algumas moedas por informações, conseguiu encontrá-lo depois de algum tempo.

Apesar dele ser um veterano dos mares, parecia um homem disposto a fazer um bom negócio. Luth contou a ele sobre o que seus homens haviam aprontado na taverna com sua irmã e o que havia ocorrido com eles. Disse também que eles revelaram informações sobre o que estavam transportando no navio e que ele não gostaria de ter os Corvos de Prata inspecionando suas cargas, mas que estava disposto a não reportar o ocorrido se ele desse uma carona ao grupo até algum lugar próximo da velha Corte Élfica.

Apesar de ser um enorme blefe e dele saber que estava sendo chantageado, ele não pareceu se sentir ameaçado por aquilo, deixando claro que poderia nos matar a qualquer momento depois que estivéssemos no mar. Ele pareceu admirar a ousadia de Luth por tentar isso contra ele.

O pirata aceitou os termos e Luth combinou de entregar seus homens no dia seguinte, pois iriam zarpar assim que terminasse seus negócios no local. Perfeito. Isso também daria tempo ao grupo de reunir outras informações que precisavam a respeito do seu destino. Mas lá no fundo da sua mente, algo incomodava Luth. O capitão tinha aceitado a proposta fácil demais…

Bom, ao menos um problema estava resolvido: o grupo já tinha o transporte.

(…)

Luth voltou à taverna e contou ao grupo que tinha conseguido fechar um acordo com o pirata. Sasha saltitava de empolgação, mas Bartolomeu parecia preocupado.

Luth lhes contou sobre as velhas lendas do local, de que quando os Elfos deixaram Cormanthor, eles haviam deixado um tesouro por lá, escondido por muitas pistas e desafios. Um trecho até falava sobre um guardião. Era só uma passagem, talvez fosse até mesmo algum tipo de erro já que o documento não fazia mais menções a tal coisa. A única coisa bem clara nas histórias é que ninguém tinha voltado de lá.

(…)

Enquanto Bartolomeu e Sasha preparavam as coisas para viagem e deixavam os marujos prontos para o transporte, Luth foi até a biblioteca local ler mais um pouco.

Pelo que parece, a floresta é protegida por magia élfica antiga e pelas armadilhas dos Drows do subterrâneo que sonham em encontrar pistas dos tesouros deixados para trás pelos elfos e, quando a noite realmente chegasse ao mundo, os Drows iriam emergir do subterrâneo para habitar novamente a superfície.

Aquilo deixou Luth um tanto quanto inquieto, pelo visto o grupo ia ter que dar um jeito de passar pelos Drows e penetrar nas profundezas da floresta rapidamente, ou iriam perder a chance de usar a luz da lua como guia, como o mapa orientava. O tempo era curto.

(…)

Depois de uma noite de descanso, o grupo seguiu viagem até Yhaunn para encontrar o capitão. Enquanto viajavam, os gêmeos perceberam que Bartolomeu parecia mancar de uma perna. Um ferimento de batalha talvez? Mas, se ele conseguia manejar uma glaive daquele tamanho sem problemas, o ferimento não devia ser lá grandes coisa.

Os marujos perceberam isso também, e não deram nenhum trabalho no caminho. Pareciam inteligentes o suficiente para querer manter suas cabeças grudadas ao pescoço.

Ao subirem no barco e entregarem os marujos, nos deram algumas cabines. O capitão manteve sua palavra, apesar de ser um pirata.

Mesmo assim, o grupo evitou conversar sobre seu destino ou missão para não chamar a atenção. Afinal, que pirata poderia ser capaz de resistir a um tesouro?

(…)

Foram quatro dias de viagem até chegarmos ao nosso destino. Teria sido um tédio se não fosse pelos livros de Luth, as estórias que o paladino contava e a música de Sasha.

Quando o navio passou pelo Sino das Profundezas e nos aproximávamos das margens da região próxima da Árvore Élfica, o capitão disse que nos deixaria por ali, pois dali iriam para os portos e que seria bom evitarmos eles.

Mandou alguns homens em um barco menor nos deixarem na margem. O que não agradou nada ao grupo, porém, foi seu sorriso ao nos ver descer que deixou uma preocupação velada.

Sem outra escolha, seguimos até encontramos uma clareira na floresta e montamos acampamento antes de irmos mais à fundo do lugar, afinal teríamos que cruzar a floresta da antiga Corte Élfica e isso não era tarefa fácil mesmo com tempo de sobra.

A lua de Mith’Darel seria em pouco mais de um dia, e precisaríamos estar na trilha do Meio Machado próximos ao Rio Duathamper logo.

Acampamos sem muitos problemas, e seguimos no dia seguinte assim que o sol nasceu.

Levamos boa parte do dia para cruzar a floresta fechada, cheia de Orcs que tentavam nos emboscar, vinhas traiçoeiras, animais peçonhentos, musgos escorregadios e seus inúmeros perigos. Bartolomeu usava sua glaive com maestria, enquanto Luth usava sua magia e Sash fazia o controle do campo de batalha com sua música.

Quando o crepúsculo se aproximava, chegamos ao que parecia nossa primeira parada.

Olhei para o mapa tentando interpretar a mensagem: “Sob os olhos da mãe das estrelas, mostre sua reverência ao antigo e ilumine o caminho até o seu lar”.

O velho tinha ensinado a Luth que os antigos habitantes dos Vales costumavam usar as árvores para deixar mensagens secretas que permitiam que jamais se perdessem, porém algumas só poderiam ser percebidas pelo olhar atento de um descendente legítimo e sob a luz da lua em dias específicos! Isso que tinha lhes mantido a salvo de rastreadores por muito tempo.

A expressão “mãe das estrelas” fazia referência à divindade primordial dos elfos-das-estrelas, Mith’Darel, a primeira usuária do Bladesong. Claro que na época a técnica não era utilizada para batalha, mas sim como ritual de dança sagrado para cultuar a divindade criadora do Mythal dos Vales.

Sabendo disso, Luth imaginou que usar o Bladesong sob a luz da lua de Mith’Darel era o caminho, então pegou sua espada e começou a executar sua técnica, refletindo os raios da lua sobre as árvores.

No começo Sash e Bartolomeu ficaram observando-o como se tivesse perdido a sanidade, mas à medida que fazia isso, a luz apontava árvores específicas.

Quando terminou, alguns símbolos nas árvores se iluminaram com a luz prateada e a magia irradiou lançando vários pedaços de uma mensagem no ar. Apesar de bagunçada, seguimos a mesma lógica do criptograma que tinham resolvido e conseguiram ler os símbolos. Eles diziam: “Sob a sombra dos olhos da mãe das estrelas, entregue sua fé ao guerreiro da alma de Myth Drannor, para encontrar sua verdadeira força e restaurar a antiga aliança”.

E pensar que os gêmeos já tinham pensado que aquele mapa era só uma coisa de criança. Parece que estávamos um passo mais perto do nosso objetivo, mas o que a mensagem queria dizer?

A única coisa que entenderam era a referência foi sobre o local apontado. Myth Drannor era conhecida por ser uma das regiões mais perigosas dos Vales por suas áreas de magia instáveis, monstros extra planares, portais para outros planos e ruínas do que já foi uma das maiores e mais poderosas civilizações élficas da história. Um local que poucos ousam se aventurar.

A sombra dos olhos da mãe das estrelas poderia significar um momento em que a luz da lua de Mith’Darel seria obscurecida.

Isso lhes fez lembrar que dois dias depois da lua de Mith’Darel, a troca da lua inicia após um pequeno eclipse lunar que ocorre somente uma vez ao ano, durante poucos minutos. Só podia ser isso! mas quem seria o guerreiro da alma e como demonstraríamos a ele nossa fé?

Bom, tínhamos dois dias para chegar lá, então seguimos viagem cortando caminho pela trilha do Meio Machado a fim de evitar o Vale das Vozes Perdidas, o antigo cemitério élfico dos Vales. Era um lugar sinistro, muito mais que a floresta em si.

(…)

O caminho após o primeiro desafio foi relativamente tranquilo, com poucos Orcs e alguns lobos, mas nada que apresentasse maiores problemas.

No entanto, tivemos que evitar alguns grupos de Drows pelo caminho. Isso sim foi um saco.

Enquanto nos aproximávamos de Myth Drannor Luth lembrou que um dos Mythal que protegiam a floresta no passado ficava por ali. O da Alma, se não estiver enganado.

Ele lembrou de ter lido sobre isso na Biblioteca de Sevras há alguns anos. O artefato era responsável por não permitir que as florestas fossem queimadas ou destruídas pelos homens, logo após os primeiros homens chegarem à Faerûn, quando ainda disputavam território com os elfos.

Dizia lá que o que deu força ao Mythal foi a alma de um antigo guerreiro aprisionado em seu interior. Um sacrifício feito por um dos primeiros descendentes dos Elfos da lua, que deu nome à antiga cidade. Mas as lendas também diziam que desde que os elfos foram para Encontro Eterno, o Mythal perdeu completamente seu poder.

Quanto mais avançávamos, mais fortes ficavam as criaturas e as batalhas ferozes que se seguiram consumiram nossa energia com rapidez impressionante ao ponto que estávamos acabados quando finalmente chegamos ao Mythal junto com a noite que caía sobre a floresta.

O antigo círculo de pedras em ruínas incrustadas com runas de alta magia élfica há muito esquecida. Nem mesmo os livros mais antigos de Sevras tinham qualquer informação sobre elas, pois diziam que todo conhecimento sobre ela foi levado com os elfos para as grandes bibliotecas de Encontro Eterno, restritas à poucos olhos.

A hora do eclipse se aproximava e, por isso nos posicionamos no centro do círculo.

Sash curou um pouco de nossos ferimentos com seu poder mágico, enquanto buscamos, cada um à sua maneira, algum sentido nas palavras e informações que havíamos reunido.

A única coisa que lhes vinha à cabeça era sobre restaurar a velha aliança, pois poderia remeter ao Acordo dos Vales que foi firmado após os elfos desistirem de enfrentar os humanos e demais raças e se aliarem a eles.

Porém com a destruição das florestas, construção de estradas e rotas de comércio entre os Vales, os elfos haviam perdido a fé na aliança, passando a vê-la como um parasita que destruía tudo que tocava.

Essa desilusão foi o que fez a maioria dos elfos abandonarem os Vales e irem para Encontro Eterno. Como remediar um ódio tão ancestral e intenso?

Enquanto isso Bartolomeu andava ao redor, inspecionando as pedras até que parou na frente de uma. Ele ficou parado ali por algum tempo.

Olhando melhor a pedra e analisando a posição que ela ficava, puderam perceber que ela ficava voltada para a luz da lua, que a iluminava de frente. Foi quando pensamos: Assim que a lua for coberta pelo eclipse, talvez alguma outra mensagem se revele.

Começamos então a nos preparar para o eclipse, pois ainda tínhamos de descobrir como demonstrar fé neste contexto. Faltava alguma coisa. Mas o quê?

Decidido, o guerreiro enfiou a mão naquele espaço e disse que tinha uma barra de ferro ao fundo, que parecia ser uma espécie de alavanca. Foi então que tudo fez sentido. Se puxarmos a alavanca durante o eclipse algo deve acontecer, só que com essa revelação veio outra mais chocante: o homenzarrão estava preso ali, completamente vulnerável.

Momentos após, a sombra começou a cobrir a lua e sabíamos que a hora havia chegado, mas com ela também tinha vindo o perigo: uma flecha veio voando da escuridão mirando a cabeça de Bartolomeu, mas foi desviada pela lâmina de Luth e pela magia de Sasha.

Seis criaturas pisaram fora das sombras.

Drows!

Arrogantes, declararam que eram da família Jaelre e que aquelas terras eram deles. Disseram que um certo capitão de um navio pirata tinha lhes vendido a informação de que alguns elfos tinham vindo até aquela região e que desde então nos seguiram pelas florestas.

Sua intenção era nos interceptar, mas perceberam que parecíamos saber o que estávamos fazendo e vieram nos seguindo. Que sua família tinha direito à herança élfica e que nos matariam por ela se fosse preciso.

Os irmãos trocaram um olhar com Bartolomeu que ainda estava preso e disseram para confiar neles. Com isso, se posicionaram um de cada lado e os drows partiram para o ataque.

Se fossem morrer, seria lutando juntos! A música da ocarina ressoou na noite. Nós não iríamos desistir sem lutar.

Mais flechas vieram na direção de Bartolomeu, mas Luth usou sua magia para repelir os projéteis.

Com sua magia Sash fez a armadura do Drow que estava com arco arder em chamas. O Drow foi obrigado a largar suas armas e tentar tirar a armadura.

Ainda assim, era nítido que estavam em desvantagem, não só numérica, mas também devido às batalhas anteriores e que não durariam muito tempo.

Quando a lua estava quase coberta e o eclipse formado, Bartolomeu puxou algo dentro da pedra, parecia ser algum tipo de alavanca, mas nada aconteceu.

O arsenal de magias dos gêmeos diminuía depressa e os ferimentos começavam a se tornar mais sérios, mas ambos lutavam bravamente.

Um grito indignado vindo da garota ecoou pela noite quando uma flecha atingiu o ombro de seu irmão. Logo outra também encontrou a coxa esquerda dela e o sangue quente molhou o chão da floresta anciã.

O arqueiro Drow não parecia ter ficado feliz com o truque aplicado em sua armadura e estava pagando o “favor”, com juros, despejando flechas sobre os jovens com um sorriso malicioso no rosto.

O jovem elfo de cabelos prateados caiu de joelhos, subjugado pelo veneno das flechas. Seu olhar se voltou para a irmã que tinha caído não muito longe dele.

Ainda preso na pedra, Bartolomeu rugiu furioso, clamando ao seu deus enquanto puxava freneticamente o braço tentando se soltar.

O eclipse finalmente estava pleno e a oportunidade passava diante dos nossos olhos, perdida para sempre. A lenda não se confirmaria, e deixariam suas vidas ali, junto com muitas de seus antepassados.

A plenitude do eclipse escureceu completamente a floresta e os companheiros aguardavam pelo golpe derradeiro.

Os drows, por outro lado, pararam de atacar e ficaram encarando o paladino preso, claramente esperando que algo acontecesse, agora que se sentiam seguros. Os meio elfos pereceriam mais lentos sob os efeitos do veneno que assaltava sua veia e não eram mais ameaça.

*THUD*

O barulho alto que o corpo do Drow fez ao encontrar o chão, lançou os demais inimigos em uma luta frenética contra a nova ameaça que tinha surgido.

Enquanto um homem encapuzado lutava contra os Drows, seu bastão se movendo rápido demais para que olhos destreinados acompanhassem, Bartolomeu tinha descoberto que conseguia girar a pedra na qual o seu braço estava preso e estava fazendo exatamente isso.

A garota passou um pequeno frasco de vidro para seu irmão e logo ambos também estavam de volta à luta.

Levaram um minuto tentando determinar se o novo combatente era amigo ou inimigo e por fim juntaram-se a ele contra os Drows. Uma aliança, mesmo que provisória, ainda era melhor que morrer ali.

Quando o último dos Drows caiu, a luz da lua tinha finalmente voltando revelou as orelhas pontudas do encapuzado que acabara de chegar.

Seus golpes velozes e precisos tinham provocado um grande impacto nos gêmeos e despertado sua admiração e curiosidade. Quem não admiraria um lutador tão incrível?

(…)

Uma mão coberta de sangue foi esticada para o recém-chegado em saudação, mas ele olhou para ela e franziu o cenho se afastando um pouco. Disse que seu nome era Ohtli Cipactonal, que era um monge em uma missão de iluminação, mas que jamais viraria as costas para uma luta desigual, ainda mais se de um lado dela estivesse a corja Drow que maculava aquelas terras. Ele disse já ter enfrentado vários deles ali em sua peregrinação, e parecia feliz em ter ajudado.

Os jovens agradeceram brevemente por o recém-chegado ter lhes salvo e foram tentar encontrar alguma forma de soltar o guerreiro da maldita pedra, afinal tinham perdido o eclipse, não é mesmo?

O paladino estava impaciente e frustrado com a magia poderosa que o tinha prendido à pedra justo quando ele era mais necessário e ainda dava puxões fortíssimos tentando se soltar. Foi então que ele girou a pedra em seu eixo e um *click* se fez ouvir assim que a pedra ficou com sua face voltada para o lado oposto ao da lua.

A mão do paladino finalmente estava livre e todas as pedras do lugar começaram a brilhar, lançando símbolos que compunham outra mensagem no ar da noite e a esperança acendeu os corações mais uma vez.

“Confio o futuro de Cormanthor ao legado da nossa antiga aliança. Que a luz de prata lhe mostre o caminho pelas vozes não mais ouvidas. Que a fé lhe faça encontrar a verdadeira força para vencer os seus demônios. Que o herdeiro do segredo Avariel revele a canção perdida e as palavras mais uma vez sejam ditas ao seu protetor. Que assim seja.”

Mais um desafio que se colocava diante de nós. Sash conseguiu encontrar um lugar mais escondido que pudéssemos descansar sem sermos emboscados facilmente, afinal todos precisavam recuperar as forças. Bartolomeu acendeu uma fogueira e começou a preparar algo para comermos, enquanto Luth revirava os pergaminhos em busca de alguma iluminação sobre aquelas palavras.

O monge ficou sentado perto da fogueira enquanto Bartolomeu cozinhava e lhe contava um pouco sobre nosso objetivo. Aquilo pareceu fazer um pouco de sentido para ele, e ele disse que nos acompanharia, afinal ele voltaria para Sembia, e era caminho dele, então viajaria conosco, pelo menos por enquanto.

Fuçando nos pergaminhos Luth encontrou um que falava sobre a luz de prata, um efeito que ocorre quando o brilho das estrelas passa pela copa das árvores criando uma fina luz prateada pela Floresta das Vozes Perdidas, o antigo cemitério élfico. Aquilo ainda fez mais sentido, quando ele percebeu que falava sobre o guardião. Mesmo assim, entrar naquele lugar que até mesmo os elfos evitavam não seria nada fácil. Luth compartilhou com os demais suas descobertas e decidiram ir para lá assim que amanhecer. O grupo descansou sobre o resto da luz da lua que brilhava no céu, e depois de se revezar em turnos de guarda durante a noite, enquanto os outros descansavam, assim que amanheceu, seguiram viagem até o suposto local.

(…)

Chegando lá, depois de passarmos boa parte do dia caminhando, o local realmente era o que as lendas diziam. Apesar de ficar em meio a uma bela floresta, as copas das árvores se entrelaçam permitindo que apenas a fina luz das estrelas e da lua passasse entre elas, criando pequenos fios de luz prateada que formavam uma bela névoa que pairava sobre o lugar. Mesmo assim, a imagem de enormes lápides e ruínas de grandes mausoléus do maior cemitério élfico do continente tornavam o lugar um tanto quanto sombrio e preocupante.

Fomos seguindo aquela névoa prateada até um enorme mausoléu que ficava na encosta de uma espécie de montanha. Sash conseguiu sentir a presença de alguma coisa ali e o monge parecia incomodado, mas quando tentou comunicar essa preocupação ao grupo, descobriu que sua voz simplesmente não saía da garganta!

Algo mágico naquele lugar parece consumir todo e qualquer barulho. Luth sentiu seu coração disparar, e quando se virou para a irmã, percebeu que ela apontava para o lado esquerdo do mausoléu, sua mão trêmula e os olhos esbugalhados.

Quando os outros três pares de olhos se voltaram na mesma direção, seus corpos foram imediatamente arremessados a uma distância considerável e aterrissaram com um ruído surdo, o impacto expulsando todo o ar de seus pulmões.

Naquele momento Luth avisou aos demais que havia áreas de silêncio mágico ocultas naquele lugar.

Sem lhes dar sequer um momento para assimilar a informação, a névoa, que antes espiralada por ali, começou a se acumular em um único ponto, uma forma tornando-se cada vez mais nítida e o grupo assumiu postura de batalha, preparando-se para o pior.

Um pouco à frente da construção que a garota tinha apontado, um enorme alce com pelagem branca luminescente os encarava enquanto raspava os cascos no chão de forma hostil. Sua pelagem impecável era marcada com inúmeras runas antigas que brilhavam em um tom suave de azul e seus quatro chifres imperiosos eram adornados com guizos.

Ele batia seus cascos no chão e, apesar de não ser ouvido nenhum barulho, pequenos lampejos trovejantes de energia podiam ser notados.

No entanto, apesar de parecer extremamente irritado e seu olhar ser capaz de gelar o coração, a criatura não fez qualquer menção de se afastar da construção. O recado logo ficou claro: “Aproximem-se e encontrarão seu fim”.

Essa teoria foi confirmada assim que Luth deu poucos passos naquela direção e com um simples manear de cabeça, o guardião disparou um raio de energia que atingiu o jovem meio elfo no meio do peito e o jogou instantaneamente no chão.

O guardião deu uma pequena bufada e bateu os cascos com mais vigor e logo o chão da floresta tremeu em resposta.

Mesmo acostumado a batalhas, Bartolomeu encontrava dificuldades em manter sua postura ofensiva e não parecia muito contente com aquilo. Sasha saltou agilmente e se posicionou no galho de uma árvore antiga, onde encontrou mais estabilidade, enquanto o monge simplesmente se limitou a correr pelo terreno, como se estivesse em seu ambiente natural e o tremor causasse pouco ou até mesmo nenhum desconforto a ele. Luff alcançou a mão que Bartolomeu lhe estendeu e ficou em pé novamente.

O monge começou a contornar o alce, habilmente desviando dos raios que eram lançados contra ele e foi saltando para longe dos tremores causados pelos cascos do inimigo. Foi então que a garota parecia ter tido um momento de Eureka e lançou ao seu gêmeo um olhar que ele conhecia bem.

Ele se posicionou para protegê-la, e ela gritou que o rapaz pés ligeiros atraísse o guardião para fora da área de silêncio. O rapaz olhou em sua direção por uma fração de segundo e com um breve aceno, catou algo do chão e bateu em retirada.

Irado, o guardião partiu em perseguição, mas assim que pisou fora da área de silêncio mágico o som da ocarina se fez ouvir. A melodia, mesmo quando entoada por um instrumento tão simples, foi executada com uma precisão impressionante que até mesmo os animais noturnos pareciam ter parado momentaneamente para ouvir.

A música não era estranha aos gêmeos, e Luff prontamente reconheceu a canção que crescera ouvindo sua mãe cantar a eles.

O guardião virou a cabeça, suas orelhas se movendo atentas enquanto buscava a origem do som e quando a localizou na pequena garota ao pé de uma das antigas árvores, começou a trotar naquela direção, deixando a raiva e o monge completamente ignorados.

Ao notar isso, Bartolomeu considerou se colocar no caminho e proteger os gêmeos, mas como não detectou nenhum traço de violência no Guardião, desistiu da ideia. Vendo que o animal vinha em direção a eles, Sasha passou andando ao lado de Luth e começou a avançar lentamente em sua direção. Ela tinha atraído a atenção do inimigo, não deixaria que seu irmão sofresse as consequências se algo saísse tremendamente errado.

Seus passos levaram-na diretamente para frente do animal, o corpo pequeno e frágil um contraste impressionante com o do Guardião que facilmente atingia três metros de altura. O suor gelado escorria pela coluna da garota enquanto a melodia se aproximava do fim.

Ela finalizou e levantou a cabeça para se deparar com um par de olhos dourados enormes a encarando diretamente, como se escrutinassem sua alma em busca de algo.

— Não viemos interromper o descanso dos antigos. Nossos caminhos foram traçados até aqui. Por favor, não nos mate! — Ela sussurrou em élfico, a voz trêmula demonstrando um pouco de seu medo.

Uma voz grave e poderosa ecoou em suas mentes, quando o guardião parecendo satisfeito afastou seus olhos dos da garota:

“Crianças das estrelas e da terra, vocês foram testados e provaram-se dignos. Sigam seu caminho em paz.“

A criatura afastou-se alguns passos, se curvou e se desfez em névoa prateada. A névoa foi em direção a porta do mausoléu, iluminando algumas inscrições arcanas na porta e, logo em seguida, a pedra se moveu, revelando uma passagem cavernosa com escadas que desciam.

Nenhuma nova pista, dica ou acontecimento. Parece que ali era o fim do caminho. Mas o que há no fim dele?

O grupo desceu escuridão a dentro, com aquele cheiro de mofo e teias de aranha cobrindo as paredes e teto, revelando um lugar que não era utilizado há muito tempo.

Sasha verificou por rastros ou outras coisas, mas não havia nada alarmante ali e após mais um quarto de hora caminhando, eles finalmente chegaram a uma grande sala e em uma mesa no meio dela, um grande baú de madeira adornado com símbolos arcanos dispersos os aguardava.

Tanto o recém-chegado quanto Bartolomeu encontraram símbolos interessantes dentre aqueles desenhados no velho baú e como se estivessem estudando um quebra cabeça, os membros do grupo copiaram os símbolos para um papel.

A escrita era complexa, e seja qual for o segredo que ali era guardado, eles sabiam que era apenas uma parte da história. Uma história que estava para ser contada. Em seguida, abriram o baú, em busca de algo que os pudesse ajudar.

Ao inspecionar o conteúdo, o grupo assombrou-se e alegrou-se em iguais proporções. O que encontraram era de raridade notável e certamente ajudaria nas aventuras que ainda estavam por vir.

Ainda assim, o monge suspirou insatisfeito, o que fez o grupo voltar a si: a verdadeira pista no baú eram as inscrições e por isso, o mistério continuava.

O grupo então começou a sua jornada de volta, visto que não havia mais nada que pudessem fazer ali que fosse ajudá-los a solucionar o enigma que se postava diante deles.

Após alguns minutos de silêncio, finalmente Legrand falou. Argumentou que Bahamut havia os colocado no mesmo caminho, e que se os símbolos ainda não faziam tanto sentido, era por que algo mais se revelaria a eles. O Monge acenou, em acordo. Aquele grupo, formado ao acaso, parecia destinado a algo maior.

Luth então sugeriu que o grupo retornasse à Sembia. Lá, quem sabe, mais informações poderiam aparecer.