1. Memórias

As folhas caíam diante daquele céu pacífico de outono cercado de verde, pessoas simples, felizes, mais preocupadas em cuidar de suas vidas e seus negócios do que qualquer outra coisa. Crianças correndo e rindo enquanto inventavam alguma nova brincadeira, caíam, levantavam e se sujavam, enquanto seus pais gritavam com eles por suas travessuras. Uma imagem tão linda e simples, como a vida deveria ser para a maioria das pessoas. Mas não para mim.

Enquanto estava sentado sobre uma torre observando Campos Dourados de cima, um sentimento de nostalgia me dominou, apesar de não saber se era um sentimento realmente meu, mas era bom. Lembrei de casa, das travessuras que minha irmã e eu fazíamos, de nossas brincadeiras, dos nossos pais, da taverna. Bateu aquela saudade de casa, como se mesmo tendo chegado tão perto daquilo que eu mais buscava, uma parte de mim se sentisse incompleta, talvez fosse hora de escrever pra Sash novamente. Como será que ela está?

Aquele sentimento foi interrompido por outros sentimentos. Tristeza, misturada com ansiedade e insegurança repentinas. Esses eu tenho certeza que não eram sentimentos meus, pelo menos não eram até segundos atrás. Teria acontecido algo com Sash? Aquilo me incomodou profundamente. Como se algo de dentro de mim estivesse prestes a pular para fora. Estranhei, mas como desde crianças eu e minha irmã tínhamos uma conexão tão forte que permitia com que um soubesse estranhamente sempre o que o outro sentia, às vezes era difícil separar os que eram meus sentimentos e os que eram dela. Mesmo assim eu não estava gostando daquilo.

– Luth! Gritou uma voz ao longe.

Era a voz do velho Arn lá embaixo tentando entender como eu subi até ali, como se ele não soubesse. Aquilo só podia significar uma coisa, o velho sábio queria falar comigo. Talvez uma missão nova, ou ele tivesse esquecido algo óbvio novamente. Não sei, mas não era bom deixar o velho esperando. Com um salto pulei de cima da torre e aterrissei ao lado de Arn antes que ele percebesse. Aquele mesmo olhar de quem não entende nada, diante do susto que levou, só foi superado pelo seu cenho franzido e preocupado.

– O velho quer te ver, e é urgente! Disse Arn preocupado.

Os anos não tinham sido gentis com ele e, apesar de seus esforços, a idade já estava vencendo-o, mas não se engane, se você quisesse alguém morto e não quisesse vestígios disso, o velho Arn era a pessoa para o serviço, ou pelo menos um dia foi. Ele treinou Fafnir folha-de-prata, o maior herói da nossa ordem. Dizem que quando Fafnir decidia que alguém devia morrer, ninguém via de onde vinha, apenas sabiam que estava feito, e já podiam encomendar o velório. Era desses heróis que eu me orgulhava de estar cercado e, apesar da idade dele, eu o respeitava como um pai. Engoli aqueles sentimentos e, apesar de incomodado, fui ver o que o velho queria.

– Como estão as coisas Luth? Resolveu aquele problema já? Perguntou o velho tentando demonstrar interesse.

– Não, infelizmente ainda não consegui tudo que preciso. Mas acredito que em breve consiga! Disse observando os movimentos dele cuidadosamente enquanto andávamos.

Não demorou muito para que ele aproveitasse um desvio da minha atenção para tentar me imobilizar, como sempre testando meus reflexos, eu o deixava ganhar propositalmente, afinal não gostava de ver o velho se sentir inútil, como as vezes parecia. Era bom ele saber que podia surpreender os jovens ainda, mesmo que alguns da ordem não partilhem da minha visão.

– Você precisa observar o vento jovem Luth, ou o inimigo o usará para te surpreender! Disse ele enquanto me imobilizava.

– Realmente, apesar de que competir contra você nunca será justo não é velhote? Não te chamam de Camaleão-das-sombras à toa! Disse eu sorrindo de canto de rosto com cara de deboche.

Ele sorriu de volta, e para minha surpresa, aquelas pequenas atitudes eram talvez as únicas coisas que lembravam ele de quem era. Ser um velho patrulheiro lendário de uma das ordens mais respeitadas do continente e ter treinado o maior dos heróis dessa ordem parece não ser mais o suficiente para se envelhecer sem que te descartem como algo que foi usado e já não serve mais. Minha mãe sempre dizia que devemos respeitar os mais velhos, principalmente porque eles já andaram por estradas que nós nem imaginamos que existam. Se um deles te der um conselho, pare e escute, ela dizia. E eu fiz isso sempre, afinal, sempre que não fazia algo de ruim acontecia e, eu estabanado do jeito que sou, tive que aprender isso do jeito mais difícil, mas os anos aqui mudaram muito isso em mim, na maior parte do tempo pelo menos.

Seguimos caminho pelo meio daquele enorme lugar, afinal de onde estávamos eram quase duas horas até a base onde o velho ficava. Arn sempre me contava as estórias de suas aventuras, de como era treinar Fafnir e de como ele sempre foi um prodígio e seu maior orgulho. Devido a vida de aventuras ele não teve filhos, então envelhecer sozinho era algo triste e eu gostava tanto de dar atenção para ele que as vezes me sentia como se fosse realmente um filho para ele, e isso afastava um pouco a saudade de casa. Mas aquela sensação, apesar de amenizada pelas estórias de Arn, não passava. Algo se aproximava, e eu não estava gostando nada disso.

2. O Enclave da Esmeralda

Quando chegamos à sede da ordem, pude avistar ao longe a enorme fortificação escondida em meio à floresta, cujas torres poderiam visualizar toda extensão do

lugar e estar preparada para qualquer eventualidade. O forte contava com cerca de 2000 membros, mantendo cerca de outros 2000 sempre em missão, além de 100 batedores sempre atualizando o forte sobre qualquer novo acontecimento nas redondezas ou escoltando emissários de outras cidades até aqui, afinal era o único jeito de entrar.

A nossa ordem era conhecida como o Enclave da Esmeralda, cujo símbolo era um cervo verde sobre um campo dourado ao fundo, que representava nossa sede que ficava em Campos Dourados, uma pequena cidade de não mais de 8000 habitantes próxima de Águas Profundas, basicamente formada por fazendas fortificadas que abrangem cerca de 80 km2. A cidade foi fundada por um nobre chamado Tolgar Anuvien, um clérigo de Chauntea muito poderoso, o qual construiu um templo em sua homenagem no centro do lugar, sendo um lugar sagrado de adoração e prosperidade e o maior centro de culto a essa divindade no norte. Campos Dourados abastece praticamente todas as cidades do norte da Costa da Espada com seus produtos e sementes, através das alianças firmadas por Tolgar com magos extremamente poderosos que defendem o lugar contra qualquer invasor.

Treze anos após a fundação da cidade, os aventureiros trazidos até o lugar para proteger, formaram a ordem da qual hoje faço parte. A maioria dos membros possui descendência élfica ou mestiça da mesma, com exceção de alguns druidas que se aliaram à ordem depois. A ordem não costuma interferir nos assuntos das demais facções do continente, salvo quando convocada a tomar partido por interesse próprio ou da população do Norte. Todos os membros da ordem são imensamente respeitados no continente, principalmente no Norte, por seus exímios patrulheiros, magos, druidas e guerreiros. Dizem as canções que se você cruzar com um membro do Enclave, é bom se comportar, ou você pode estar morto e ainda não ter percebido. E, com certeza, Tolgar tira vantagem política disso, apesar de ser um dos homens mais corretos que já conheci. Já o vi rejeitar acordos e alianças muito bons por não concordar com os ideais de um reino, ou lorde, ou por simplesmente achar contrário ao interesse comum das pessoas e de sua divindade. A palavra ética o define, o que é raro diante da hipocrisia de tantos religiosos que já vi por aí.

Havia um alvoroço grande sobre o lugar. Parece que notícias ruins vieram com os batedores. Algumas criaturas incomuns foram vistas pela estrada, alguns companheiros mortos em batalha, alguns lordes bastante zangados cobrando providências da ordem, e coisas do tipo. Isso era estranho, mas deveria ser algo grande, senão não teria tanto alarde.

Passamos pelos demais membros e as informações eram desconexas sabe, como se cada um tivesse contado um pedaço da estória e ela não fizesse sentido, por isso preferi ver isso depois. Subimos até o quinto andar, passando pela biblioteca de Sevras, até o escritório do velho. Fazia algum tempo que ele não me chamava, então deveria ser algo importante.

3. Bellurius o Sábio

Batemos à porta e algum tempo depois a voz dele se fez ouvir. Aquela mistura de uma voz rouca esmagada pelo tempo de clausura e livros mostravam pequenas notas do que já foi um lendário mago dessas terras, um dos primeiros diziam. Ele pediu que eu entrasse, então me despedi de Arn e ele foi para junto dos demais, eu acho. Entrando no escritório pude ver aquela figura curvada debruçada sobre um enorme tomo antigo, fazendo força para desvendar seu conteúdo. Ele vestia uma túnica da ordem que parecia ser tão velha quanto ele e escorado ao seu lado seu poderoso cajado, ou melhor dizendo a bengala, pois era basicamente a utilidade dele hoje em dia. Ele apenas levantou os olhos vendo que era eu, e continuou fazendo o que estava fazendo.

– Jovem Luth, que bom ver que respondeu rápido ao meu chamado. É bom ver que velhos hábitos não se perdem, não é? Como estão seus movimentos? Anda treinando com a espada? Disse o velho franzindo o cenho sobre outra parte do tomo.

– Ainda tenho muita dificuldade em manter a estabilidade de alguns movimentos e não consigo manter a canção por tanto tempo. Mas estou bem melhor do que da última vez! Disse eu começando a ficar irritado com aquele velho hábito de não olhar para as pessoas enquanto conversam.

O velho sábio tinha essa mania. Nada quebrava sua concentração e ele podia fazer diversas coisas ao mesmo tempo. Algo que requer anos de prática e é capaz de irritar muita gente, mas enfim, ele ficava trancado nessa torre por muito tempo e só saía ou recebia visitas quando algo importante acontecia. Mas eu devia muito ao velho sábio. O nome dele era Bellurius, mas todos os chamavam de velho sábio. Dizem que ele chegou neste lugar junto com Tolgar, e que o segue de muito antes disso, mas ele ajudou a organizar a ordem, que se tornou sua casa depois. Eu passava bastante tempo com ele no começo, quando cheguei. Pois como não tinha as qualidades necessárias para ser um patrulheiro ou guerreiro, antes de começar nas artes mágicas é preciso muita leitura, escrutinar os mais profundos tomos em busca dos fundamentos da magia, para somente depois poder saber como e quando usá-la. Ele teve muita paciência comigo, pois eu era (era?) muito cabeça quente e não queria esperar para me tornar um poderoso mago, queria aprender logo magias poderosas e sair impressionando os outros, mas não era assim que funcionava.

– Paciência jovem Luth. Paciência é a chave para desbloquear sua capacidade. Você precisa sentir a música e se mover de acordo com seus acordes. Quando conseguir fazer isso plenamente, será tão mortal quanto Fafnir. Disse ele rindo da minha cara, como sempre.

– Preciso que você me faça um favor, na verdade é uma missão. Por isso o chamei aqui. Disse ele em um tom mais sério.

– E que tipo de missão seria digna das minhas habilidades? Disse eu desconfiando das palavras dele.

– Você precisa levar umas encomendas minhas para o Leste. E pare de torcer o nariz garoto! Essa arrogância toda não é típica do mago que você quer ser! Para ser um bom mago você precisa sentir a magia e não dar voz ao seu orgulho, ou a própria força da magia irá te consumir e vazar de seu corpo para destruir os povos e até mesmo machucar as pessoas que você tem apreço. Muitos eu vi seguirem por esse caminho, e o final deles não é nada bom! Um bom aprendiz primeiro precisa aprender a servir ao seu povo, e enquanto não aprender isso, nenhum livro te ensinará nada novo! Disse o velho franzindo o cenho.

As palavras dele podiam ser duras, mas tinham seu fundo de verdade. Não eram poucos os livros que contavam sobre grandes magos que se perderam pelo caminho. Mas droga, era tão legal ver o que a magia podia fazer. Criar coisas, destruí-las e depois recriá-las, alterar a realidade e as leis que regem o universo por apenas um instante. Aquilo me fascinava desde criança. Eu dizia pra Sash que só voltaria para casa quando aprendesse o caminho para ser o maior de todos os magos, mas a realidade é mais dura do que sonhos de criança. Faz dez anos desde que vim para cá, e ainda sei tão pouco comparado aos outros magos. Mas a ordem realmente é o que minha mãe dizia: “Ela te ensinará que o mundo só gira em torno de você quando você está bêbado”.

– E o que exatamente eu irei transportar? e para quem e onde devo entregar? Perguntei enquanto baixava o semblante.

– Você irá levar Sementes Rilhuens e entregar para alguns lordes do Leste. Elas irão ajudar na reconstrução das florestas agora que a praga está contida. Apesar da missão parecer pequena, é preciso proteger essas sementes, pois elas são vitais para a reconstrução do Leste, e faz parte do dever da ordem ajudar com isso. Além disso, heróis não são apenas aqueles que enfrentam as calamidades quando surgem, mas aqueles que cumprindo seus atos diários evitam que novas aconteçam. Se temos o poder de evitar um mal maior, é nossa obrigação fazê-lo, sob pena de sermos coniventes com o mal. Disse ele tentando me animar.

– Nunca imaginei que uma missão assim seria confiada a mim. Ainda mais ao Leste. Tão perto de casa. Disse.

– Bom, o comandante não estava muito de acordo em mandar você para lá, afinal ele duvida que você voltaria de novo depois de reencontrar sua família. Laços de sangue tendem a nublar nossa visão sobre a causa dos povos. Porém eu consegui dissuadi-lo, pois sei que você é capaz de proteger as sementes, e que melhor motivo para ir tão ao Leste do que rever sua irmã? Acho que isso ajudará a acalmar seu coração e mente e talvez te faça ser um mago melhor, não é mesmo? Afinal já faz 10 anos. Disse o velho quase como se escrutinasse meus pensamentos e sentimentos.

– Além disso, ninguém jamais desconfiaria de um jovem alquimista e aprendiz de mago que viaja de volta para casa para rever a família. Ninguém ia pensar que um aprendiz carregaria coisas tão valiosas consigo, não é? Disse ele rindo.

As palavras dele faziam todo sentido, afinal essas sementes eram consideradas uma das maiores criações mágicas de Campos Dourados. As sementes eram abençoadas durante os festivais da colheita em homenagem à Chauntea. Dizem que de cada semente plantada nasce uma enorme área de floresta e o solo, mesmo infértil, recupera sua capacidade de se reconstruir em pouquíssimo tempo, o que com certeza seria uma enorme ajuda para as terras do Leste que foram tão devastadas com a Praga. Mesmo depois de anos, alguns lugares nunca foram os mesmos e isso podia mudar tudo. Apesar disso, era uma jogada inteligente, mas terrivelmente arriscada.

– Eu irei de bom grado, assim terei a chance de passar no Porco Voador e rever minha família. Mas para quem devo entregar elas? Disse eu vibrando com o sentimento que aquilo trazia.

– Você entregará as sementes para Kalyssa, sua mãe, e ela saberá o que fazer e para quem entregar. Disse ele.

Aquilo começava a fazer cada vez mais sentido, pois apesar de minha mãe, Kalyssa Faenya, ter sido uma das patrulheiras da ordem anos atrás, depois que conheceu meu pai, Oghrid Erendann, e abriram o Porco Voador – a taverna da nossa família – ela deixou de sair em missões pela ordem passando a ser apenas informante e ponto de contato da ordem com as sedes ao leste. Homens estranhos sempre apareciam por lá quando éramos pequenos, pegavam coisas com ela, deixavam papéis, ou coisas como dinheiro e joias. Outros chegavam machucados e nossos pais os levavam para uma sala nos fundos da taverna meio rápido, ao que parece para não serem vistos, e isso sempre me pareceu estranho. Sash e eu às vezes tentávamos espiar e ouvir o que eles falavam e faziam quando éramos menores, mas e quem disse que era possível fazer algo escondido da mamãe? Meu pai costumava dizer que ela poderia ouvir um alfinete caindo à milhas de distância. E isso sempre fazia a gente ter que lavar os pratos e canecos da taverna depois. Bons tempos!

– Eu aceito de bom grado a missão. Obrigado pela confiança depositada nas minhas habilidades. Disse eu me virando para começar a sair.

– As sementes já estão em uma caixa no seu quarto junto com um presente meu. Espero que goste dele. Ahh, e antes que eu esqueça, leve isso com você. Disse o velho com um sorriso no canto da boca estendendo um pergaminho na minha direção.

– Essas são algumas dicas para interpretar aquele velho mapa que você trouxe com você quando chegou. Acredito que serão úteis, se ainda tiver interesse nele. Disse o velho.

Por um momento eu me esqueci completamente disso. Eu trouxe comigo assim que cheguei aqui um mapa que eu e Sash ganhamos da nossa mãe quando ainda éramos crianças. Ela dizia que aquele mapa passou por gerações de sua família sem nunca ter sido desvendado. Eu e Sash costumávamos brincar na floresta procurando por pistas do que aquele mapa poderia revelar, mas nunca achamos nada, apesar de a caça ao tesouro me trazer boas lembranças, e eu desconfiar de que aquele era o objetivo do mapa. De toda sorte, eu o entreguei ao velho e pedi que ele me ajudasse com isso, mas faziam tantos anos, que pensei que ele havia esquecido. Aquilo realmente me surpreendeu.

– Ahhh sim, obrigado velhote… ah digo, mestre! Vai ser muito útil! Espero que dessa vez o presente que me espera não tente comer o meu braço como o último. Disse eu corando por ter falado demais e tentando levar o assunto para outro rumo.

Saí dali me despedindo dele em direção ao meu quarto, feliz por ter sido escolhido para a missão, por poder rever minha família, mas aquela sensação ruim não passava, e isso estava me deixando mais preocupado. Talvez aconteceu algo com Sash. Preciso me apressar.

4. A Partida

Quando cheguei ao alojamento fui logo arrumar as coisas para partir, mas não sem antes conferir se as coisas estavam todas realmente ali como o velho falou. Encontrei em cima da mesa um baú de madeira todo sujo de pó, o qual me fez espirrar assim que cheguei perto. Parecia algo bastante antigo e importante.

Quando eu o abri, dentro dele haviam algumas coisas interessantes: um saco de veludo vermelho amarrado com uma fita dourada que claramente estava imbuída em magia de glifo de vigilância, ao que deduzi ser as sementes; uma espada longa feita de prata élfica com o rito da minha canção esculpido na lâmina junto à um pergaminho que tinha algumas instruções de uso; um pesado volume do que parecia um livro embrulhado em um tecido fino que ao abrir ele revelou ser um grimório cujas páginas eram de um metal fino e um recipiente com um líquido verde e uma caneta estranha com ponta de vidro abrasivo junto a um pergaminho; uma mochila com algumas coisas dentro e um porta mapas com o mapa do continente indicando os locais da ordem espalhados.

Quando li os pergaminhos, tinham comentários do velho sobre como melhorar meus movimentos e precisão usando aquela espada que tinha lhe pertencido quando começou sua jornada, ele disse que a espada se chamava Lost Song, e era seu primeiro presente para mim. O grimório era o segundo presente, assim as magias escritas jamais seriam perdidas, pois só poderiam ser escritas com ácido e aquela caneta sobre o metal, com instruções de que eu passasse todas as minhas magias para ele antes de partir e assim que encontrasse novas magias também transcrevesse para ali. A mochila tinha itens úteis para uma missão como a minha, um pouco de ouro para as despesas de viagem, e o mapa garantiria que eu se eu tivesse problemas pudesse recorrer a sede mais próxima e algum contato da ordem. O velho realmente havia pensado em tudo.

No fundo do baú, havia uma caixa de madeira que mais parecia um tipo de recipiente à prova d’água e tempo. Tinham instruções para que eu guardasse o mapa que ganhei da minha mãe ali. Por fim, uma caixinha pequena contendo um colar feito de prata élfica e detalhes em ouro com o símbolo do Enclave da Esmeralda. A prova máxima de que você era um membro e dado apenas àqueles que saem em missões representando a ordem. Haviam instruções para que eu o usasse apenas por baixo das roupas, e só o mostrasse a alguém da ordem para me identificar. Atrás do colar havia um símbolo arcano que eu não consegui entender para o que servia, mas enfim, podia ser um enfeite maneiro.

Quando terminei de olhar tudo, arrumei as coisas para partir, gastei uns dois dias até copiar todas as minhas magias para meu novo grimório, mas finalmente terminei. Tudo estava pronto. Me despediria de todos, e sairia na minha primeira missão oficial. Todas as outras haviam sido apenas para coletar materiais na floresta, ingredientes de poções, couro de animais, mas nunca algo que tivesse esse tipo de importância. Era hora de provar meu valor, mas acima de tudo, era hora de voltar para casa.

5. Eluthruel “Luth” Faenya

Assim que me despedi de todos, preparei meu cavalo para seguir viagem. Coloquei as vestes e segui pela estrada do comércio com a intenção de chegar até minha casa na Ponte do Arco, no Vale do Arco, fronteira com Sembia.

No caminho, fui tomado por diversas lembranças de tudo que aconteceu na minha vida até aqui. Meus pais me deram o nome de Eluthruel Faenya, mas todos me chamam de “Luth” desde pequeno. Eu sou um meio-elfo da lua nascido e criado em Ponte do Arco na Terra dos Vales, fronteira com Sembia. Sou filho de Oghrid Erendann, um meio-elfo do sol e antigo aventureiro, e Kalyssa Faenya, uma meia-elfa da lua e antiga patrulheira do Enclave da Esmeralda. Ambos se conheceram no passado em circunstâncias bem inusitadas, e depois de anos de aventuras se estabeleceram em Ponte do Arco, onde se casaram e abriram uma taverna conhecida como “Porco Voador”. Eles tiveram um casal de gêmeos, minha irmã Sasha – que eu chamo de Sash – e eu Luth.

Eu e minha irmã nascemos em circunstâncias bem especiais e sempre tivemos uma ligação muito forte. Eu nasci um meio-elfo da lua e ela uma meia-elfa do sol e nossos olhos são de cores diferentes. Meu olho esquerdo é prateado e meu olho direito é dourado, enquanto os da minha irmã são da mesma cor, porém na posição inversa.

É um lance meio bizarro, mas é nosso lance sabe? Nós conseguimos sentir o que o outro sente, e sempre fomos muito próximos um do outro. Ela sabia quando eu me machucava ou me sentia triste, e eu certas vezes era tomado por sentimentos que não costumava sentir e depois entendia que eram dela. Sempre fomos confidentes um do outro, seja nas travessuras ou nas coisas sérias. Nossos pais enlouqueciam com a gente, mas nos entendiam, apesar de algumas pessoas nos olharem estranho devido aos nossos olhos.

Papai e mamãe sempre disseram que éramos especiais, podíamos nos entender só nos olhando, ou até mesmo estando longe. Quando eventualmente deixávamos de sentir a presença do outro saíamos correndo ver o que houve, e geralmente era problema. Apesar disso tivemos todo o amor e carinho que uma família pode proporcionar. Apesar do pai ser meio trapalhão, ele tem excelentes estórias e adora caçar e cozinhar; enquanto a mãe é mais dos livros, números e organização. Eu sempre fechei mais com ela, até porque eu amava ouvir as estórias sobre o Enclave, e sonhava em um dia poder fazer algo como nas estórias. Ela disse que eu poderia treinar lá quando tivesse idade.

Quando completei treze anos, chegou a hora de finalmente seguir meu caminho. Sinceramente eu sempre contava que esse dia chegaria, mas não pensei que estaria tão ansioso, com uma mistura de receio e desconforto em deixar minha casa, minha família, mas principalmente de não poder levar Sash comigo. Ela sempre fechou mais com o pai e isso meio que acabava distinguindo a gente um pouco, mesmo assim não queria me separar da minha irmã. Decidi então que precisava dar a ela algo para lembrar de mim até que eu voltasse. Eu falei com a mamãe que ajudaria ela na taverna em troca de algumas moedas para comprar um presente pra Sash, afinal eu não gostava da rotina da taverna tanto quanto Sash, mas valia o sacrifício. Após algumas semanas eu finalmente tinha o dinheiro para comprar o presente e fui até o porto onde alguns mercadores vendiam itens muitos bonitos. Ela gostava de música e até tentava cantar, mas meus ouvidos sofriam, confesso, por isso decidi ver se tinha algum tipo de instrumento por lá. Eu encontrei depois de muita procura algo que me chamou atenção: Uma ocarina esculpida em pedra branca com algumas notas musicais entalhadas. Eu gastei todo dinheiro que tinha, mas não tive dúvida assim que vi ela e comprei.

Na noite anterior a minha partida, eu me sentei e fiquei observando a lua. Eu tinha uma relação muito peculiar com a lua, ela me acalmava, podia passar horas olhando para ela e parecia que meus sentimentos se apaziguavam, mas não hoje, eu realmente estava feliz por seguir meu sonho, mas receoso que as coisas não dessem certo por lá. Pouco tempo depois eu escuto um barulho e quando viro para trás vejo Sash se aproximando. Ela disse que conseguia sentir o que eu estava sentindo e que eu não devia me preocupar, pois tudo ia dar certo, afinal nossos pais eram incríveis e nós também seríamos. Disse que manteríamos contato por cartas e que ela estaria ali me esperando e torcendo por mim. Aquilo me fez dar um sorriso bobo para segurar o choro, então puxei do bolso a ocarina que comprei e disse a ela que era bom ela praticar bastante, pois iria querer ouvi-la assim que voltar, e não queria ter dores de cabeça de novo. Ela sorriu, e ficamos ambos olhando para a lua, até que a alvorada começou a apontar, e a hora finalmente chegou, eu tinha que partir. Decidimos não nos despedir, pois era apenas um até logo e não um adeus.

6. O Treinamento Inicial

Foram semanas de viagem até Campos Dourados, onde ficava sede do Enclave, praticamente uma grande expedição pelo continente junto com outros garotos e um dos membros que nos escoltava, um elfo meio ranzinza chamado Halt. Ele não era muito de falar, à não ser para dar bronca quando a coisa saia da linha.

Eu arrumava muita encrenca com os outros garotos devido ao meu temperamento. Sash sempre dizia que eu era muito “esquentadinho”, mas fazer o que se puxei a mãe e logo saía distribuindo uns cascudos? Mas ali não seria tão simples. Tinham garotos maiores e bem mais habilidosos do que eu. Eles ficavam tirando sarro dos meus olhos me chamando de “mestiço”, e eu ficava enfezado com isso. Apanhei feio várias vezes por comprar briga com eles, mas Halt sempre intervia quando saia dos limites aceitáveis.

Eles se gabavam da descendência familiar deles, alguns eram filhos de nobres, outros elfos puros das famílias remanescentes dos vales e eu era apenas o filho de um casal de meio-elfos que tinha uma taverna, mas sempre tive muito orgulho disso.

Apesar de tudo isso, a viagem foi incrível. Ah como eu queria que Sash pudesse ver as terras por onde passei. Cidades enormes, cavaleiros de armadura brilhante, castelos que nem se comparavam às estruturas dos Vales, artistas que tocavam instrumentos exóticos e que faziam malabarismos com fogo, tavernas diferentes da nossa, lutas de rua entre guerreiros formidáveis, magos poderosos e tantas outras coisas. Espero que ela consiga sentir toda a euforia que sinto.

Depois de muitas semanas de viagem chegamos até nosso destino. Eu fiquei maravilhado com a cidade, que apesar de parecer um aglomerado de fazendas que se escondiam sob muralhas fortificadas, havia um templo magnífico ao centro que as pessoas tratavam como sagrado, era dedicado a uma deusa chamada Chauntea, que diziam ser a protetora daquelas terras e das colheitas. Uma terra verde e farta de pessoas simples e muito alegres, cercada por florestas. Mas o que mais me impressionou foi que à medida que nos aproximávamos da floresta, uma fortaleza enorme parecia surgir, com vigias preparados em suas torres e com capacidade para abrigar milhares de pessoas. Algo construído de uma madeira que parecia divina de tão bela, incrustada com runas élficas de proteção que permitia com que apenas olhos treinados pudessem percebê-la. Naquela hora fiquei pensando que tipo de mago poderoso poderia ter feito tamanha façanha.

Fomos enviados a um tipo de alojamento conjunto dos recrutas e recebemos as orientações e regras. O treinamento inicial era igual para todos, pois indiferente da especialização que pretendíamos obter, precisávamos aprender a sobreviver primeiro. Aquilo era exaustivo. Eu me perdi várias vezes naquela floresta, nas missões, não era tão bom como os outros garotos. Passei fome, frio, para aprender a resistir e me virar em qualquer ambiente. Quase morri várias vezes. Halt sempre encorajava aos que quisessem que poderiam desistir e voltar para casa, e os garotos me zoavam falando que um mestiço jamais se daria bem naquela vida. Mas eu precisava conseguir, afinal prometi pra Sash que só voltaria depois que fosse um grande mago da ordem. Se era preciso isso para rever minha família, eu terminaria o treinamento.

A única pessoa que sempre me encorajou foi o Arn, um velho patrulheiro da ordem que diziam estar aposentado. Ele sempre acabava me achando quase morto nos campos de treinamento e me trazendo para casa e tratando das minhas feridas. Ele me encorajava a não desistir e que assim que o treinamento acabasse, eu poderia realizar o meu sonho. Ele praticamente era a minha família ali, e eu valorizava muito isso, afinal, não tinha uma noite que eu não deitasse exausto olhando para a lua, pedindo consolo e esperando que Sash estivesse bem e do outro lado um pudesse sentir o outro, mas a saudade castigava muito.

Uma vez por mês podíamos escrever uma carta para casa e era um dos meus momentos favoritos, pois podia contar a Sash tudo que eu estava passando, exceto os momentos humilhantes, afinal não queria ela pegando no meu pé depois. Ela também me escrevia regularmente, e era minha maior alegria ouvir notícias de casa e relembrar como as coisas eram.

Finalmente o treinamento inicial terminou depois de dois anos, e eu sobrevivi. Recebemos as avaliações e, segundo Halt eu fui o que teve as piores notas. Eu realmente não servia para ser um guerreiro ou patrulheiro, mas talvez tivesse alguma chance como mago, e era justamente o que eu queria ouvir. Ele disse que eu tive uma requisição e, talvez lá eu fosse útil. Eu estranhei aquilo, mas concordei, afinal que opção eu tinha? Era isso ou ser expulso.

Eu fui designado para auxiliar na biblioteca de Sevras, onde deveria me dedicar para as leituras básicas dos fundamentos de magia e me dedicar ao estudo dos idiomas, das poções, e tomos antigos de alquimia. Quem supervisionava meu treinamento era o velho sábio Bellurius, um elfo curvado que passava dias enclausurado em seu escritório. Ele vivia dizendo que ele mesmo me requisitou para seu serviço, pois conheceu minha mãe e prometeu cuidar do meu treinamento quando chegasse a hora. Mas o que aquele velho curvado poderia me ensinar? Talvez a como mancar mesmo usando uma bengala? Pelos deuses, haja paciência, é pedir muito me ensinar a destruir algumas coisas com magias poderosas como os magos das estórias? Faria aqueles garotos engolirem quem era o “mestiço”. Eles que me aguardem.

7. A Biblioteca de Sevras

Na biblioteca aprendi as muitas línguas faladas por aí, algumas não consegui entender direito, mas aprendi o idioma dos dragões, dos celestiais, dos Infernais e dos seres primordiais, os quais eram os mais utilizados nos tomos de magias mais poderosas que um dia eu poderia desvendar.

Mesmo ficando na biblioteca, não eram todos os livros que eu tinha acesso. A sessão privada era restrita aos magos especialistas que protegiam a ordem e a cidade. Era meu sonho poder folhear aqueles tomos e ver o que tinha neles. Lá provavelmente estariam as magias que me tornariam o mago que eu queria ser. Uma vez cheguei a planejar uma traquinagem estilo a que eu Sash fazíamos quando éramos pequenos, mas eu fui pego e obrigado a limpar os penicos dos alojamentos por um mês para me retratar. Cara, você não tem noção de como eu fui zoado por isso, mas eu estava determinado a ser o melhor limpador de penicos se precisasse para me tornar o que eu queria ser, contanto que Sash não ficasse sabendo disso, ou ela me arranjaria um apelido pior dos que eu ganhei por isso.

Quando meu castigo finalmente terminou, eu voltei para as minhas funções antigas, ciente das consequências dos meus atos lá dentro. Eu não estava mais em casa, então precisaria me comportar se quisesse ter um futuro. Eu incomodava o velho sábio diariamente por uma oportunidade de aprender magia de verdade, afinal eu já tinha completado a fase inicial do meu aprendizado. Depois de muita insistência ele assentiu em me passar alguns truques simples, e ficou impressionado como eu conseguia me machucar sempre que tentava fazer alguma magia. Eu era um desastre. Ele sempre me dizia que magia requer paciência, para sentir sua essência e somente então deixaria ela fluir através de mim. Mas dependia mais do controle da minha mente e das minhas emoções do que propriamente de talento para isso.

Foram anos de prática e dedicação, mas finalmente consegui aprender uma boa quantidade de magias e conseguia controlar elas de forma efetiva e transcrever elas no meu grimório. Foi quando o velho disse que poderíamos passar para a próxima fase do meu treinamento, onde eu iria misturar magia e combate real, com uma espada. Hein? Magos usam espadas? Socorro!!!

8. Bladesong

É isso mesmo que você ouviu: Magos lutando com espadas!!! E a coisa piora, dançando! Aquilo não me cheirava bem, não tão ruim quanto os penicos, mas isso é uma coisa que eu não quero lembrar agora.

A primeira coisa que eu precisaria aprender seria a tornar meus movimentos mais “graciosos” e a usar eles como vantagem em um combate real. Além do treino com espadas. Cara, se eu te contar cada tombo que eu caí, cada machucado nas mãos. Eu era tão ruim nessa coisa de dança, que parecia mais um ritual de acasalamento exótico de alguma criatura insana tirada de uma comédia de bardos. Sem falar que eu não tinha aquela coisa de movimentos graciosos dos elfos, afinal eu era só metade elfo, mas eu não desisti.

Os outros garotos chegavam a fazer fila nos intervalos do treinamento para me zoar enquanto praticava com a Meilee, minha instrutora de dança. Ela era uma linda barda elfa responsável pela turma dos bardos. Sash teria gostado dela. Mas apesar do talento e esforço dela eu não tinha muito estilo, ou melhor, tinha um estilo próprio. Eu conseguia sempre seguir o contrário do que eu tinha que fazer. Se dependesse da parte que puxei do meu pai eu me perderia nos meus próprios pés, mas não podia envergonhar a mãe, senão ia ser horrível se eu fosse mandado embora e tivesse que encarar os cascudos dela. Mas ser chamado de ogro bailarino e coisas piores pelos outros garotos era a pior parte. Eu realmente não entendia o sentido daquilo.

O treinamento com espadas era mais tranquilo e eu até que levava jeito para a coisa. Não como um dos garotos da equipe dos guerreiros, mas eu me virava bem até. O problema foi quando tive que juntar as duas coisas. Cara, se você tivesse ideia do vexame que foi, porém depois de muita prática e paciência da Meilee, eu aprendi os movimentos e até os executava bem. Com a prática a dança evoluiu para movimentos acrobáticos mais complexos. Não preciso te dizer dos tombos né? Pois é.

A coisa ficou pior quando ela disse que eu teria que seguir o treinamento com o velho Bellurius. Ele me ensinaria a antiga arte da Canção da Lâmina, usando a antiga magia élfica chamada Bladesong, que se baseava em ampliar a capacidade de movimentação e canalização da magia através da espada e dança. Eu só conseguia imaginar aquele velho que mal caminhava direito soltar a bengala e fazer metade do que eu fiz, mas paguei para ver o que aconteceria. Pelo menos eu iria rir um pouco.

Depois de uma semana refinando meus movimentos, chegou o dia de ter as aulas com o velho sábio. Ele me levou para a floresta mais remota do lugar perto de uma clareira com uma antiga pedra que tinha alguns símbolos arcanos na volta. Ele disse que aqueles símbolos representavam um talento que poucos em cada geração poderiam executar, a antiga canção élfica chamada Bladesong. Se eu realmente conseguisse utilizar ela, poderia ser um mago que não dependeria apenas das suas magias à distância, mas que mesmo em um combate corpo a corpo poderia me virar tão bem como qualquer guerreiro.

Eu até queria acreditar naquilo, mas eu duvidava que ele pudesse me mostrar. Foi então que ele assoviou e de trás das árvores o velho Halt apareceu. Eu imaginei que ele veio ver minha desgraça naquilo e rir de mim também. Mas não. O velho disse que faria uma demonstração, enfrentando Halt em combate físico. Essa eu pagava para ver. Mesmo os melhores recrutas da equipe dos guerreiros jamais sequer encostaram em Halt. O que aquele velho corcunda poderia fazer? Eu me sentei em frente a pedra para assistir.

O velho puxou uma espada real da cintura e se apoiou sobre ela quando soltou o cajado. Ele fechou os olhos e começou a recitar as palavras que estavam escritas na lâmina, que eram idênticas às runas que estavam na pedra. Enquanto isso Halt parecia suar frio, como se estivesse realmente focado no combate. Quando as palavras ganharam um ritmo, uma linda melodia podia ser ouvida. Uma aura de energia azul circundou o velho e ele endireitou sua postura. Fez movimentos tão rápidos com aquela espada que outrora usava para se apoiar, e posso te garantir, aqueles movimentos pareciam de um jovem na flor da idade.

Antes que eu percebesse, ele começou a se mover no ritmo daquela canção, em movimentos graciosos, mas mortais. Halt mal conseguia acompanhar eles, e se defendia como podia, mas dava para perceber que se aquilo fosse um combate real, Halt teria caído nos dois primeiros movimentos. Além disso, ele conseguia conjurar magias enquanto movimentava a espada, de uma forma que jamais pensei que um mago conseguisse fazer, mas o mais surpreendente, era ver ele executando aquelas acrobacias complexas, era como se as leis que regem o mundo físico não se aplicassem para ele. Eu estava boquiaberto. Se eu conseguisse fazer apenas uma parte daquilo, ninguém me venceria em combate.

Depois de um tempo disso, a espada do guerreiro caiu e a espada do velho estava apontando o pescoço de Halt.

– Quem é o velho agora jovem Luth? Disse ele ao olhar para mim ofegante e com cara de cansado.

– Apesar de meu corpo velho não aguentar isso por muito tempo como quando eu era jovem, ainda posso tirar alguns truques da manga, ou melhor, da bainha! Magia é domínio da mente sobre o corpo e não o contrário! Quer continuar sendo o “Ogro Bailarino” ou está pronto para ser treinado de verdade garoto? Disse ele resoluto.

9. O Porco Voador

Essas boas memórias me perseguiram por toda viagem. Peguei a estrada do comércio até a bifurcação de Proskur e a ponte até Suzail, passando por Sembia, até finalmente avistar aquela silhueta que eu jamais esqueceria. O tipo de terreno começando a mudar, as velhas marcas de carroças na estrada de floresta que levava até Ponte do Arco. Excelentes lembranças desse lugar. Não estava nem acreditando que novamente estava em casa.

O Porco Voador, a taverna da nossa família. Aquela nostalgia começou a tomar conta de mim, mas logo foi substituída por uma sensação de alívio. Eu podia sentir a presença de Sash novamente, mas não como se ela estivesse ali. Talvez as memórias tivessem mexido com minha cabeça, não sei. Era bom ver o que estava acontecendo.

Ao entrar no lugar, ele estava cheio como de costume. Alguns bêbados, soldados locais, mercadores, e atrás do balcão uma cena que encheu meu coração de alegria: minha mãe estava atendendo! Ela lançou um olhar para mim assim que entrei, e o olhar de alívio era perceptível na expressão dela. Fui até ali e nos encaramos por um momento. Ela me encarou e analisou por alguns momentos, e em seguida disse:

– Parece que meu garoto está maior que eu hein? É bom ver você de novo querido, principalmente são e salvo. Disse ela me dando um abraço que só ela poderia dar.

– Dez anos! Nossa como o tempo voa. Eu estava aflita com tudo que está acontecendo e, apesar das suas cartas não era a mesma coisa que ter você aqui conosco. Seu pai está caçando, mas ele voltará logo, vai ficar feliz de ver você bem.

Ela estava linda como sempre. O tempo foi muito gentil com ela. Eu não sabia o que dizer, pois era uma mistura de sentimentos se aglomerando na minha cabeça. Tanta coisa para dizer, mas não vinha nenhuma palavra na boca.

– É bom estar de volta! Senti tanta saudade mãe! Não foram poucas as vezes que quis voltar correndo para cá, mas eu jamais te envergonharia. Eu disse que só voltaria quando fosse um mago digno de dar orgulho para a aventureira e incrível mãe que eu tenho. Bom, acho que isso diz muita coisa, não? Disse eu com lágrimas nos olhos.

– É bom te ver com as vestes da ordem. Bellurius me avisou que você vinha há alguns meses atrás, estava te esperando. Fico feliz que aquele velho tenha cuidado bem de você. Mas você está tão magro! Está comendo direito? Como pretende ser um bom combatente com esses braços finos? Venha, vou te dar um pouco da sua comida favorita! Tenho certeza que Campos Dourados não tirou seu gosto pela minha comida, não é? Disse ela com aquele olhar de mãe coruja.

Era impossível discutir com ela. Aquelas palavras me lembraram de nossa infância e de como ela cuidava tão bem de nós. Nossa eu sou tão sortudo por ter uma família assim. Enquanto acompanhava ela para provar o ensopado dela, que era minha comida favorita, perguntei de Sash, afinal o Porco Voador não era a mesma coisa sem ela.

– Mãe, onde está Sash? Caçando com o pai de novo? Perguntei enquanto enchia a boca de ensopado.

– Infelizmente não querido. Sua irmã estava preocupada com você, e disse que precisava passar um tempo longe daqui para resolver isso. Apesar dos meus avisos, sabe como ela é cabeça dura que nem seu pai, não é? Ela cresceu bastante e sabe se virar bem, apesar de que eu preferia que ela estivesse aqui conosco. Disse ela meio cabisbaixa.

– Não se preocupe mãe. Sash sabe se cuidar. Tenho certeza que ela está bem, mas assim que fazer o que vim fazer irei ao encontro dela. Estou com muita saudade da minha irmãzinha. Disse eu tentando acalmá-la um pouco, apesar de preocupado.

Enquanto comia ela disse que sabia o motivo da minha vinda e questionou se estava tudo certo com a entrega e se eu tive algum imprevisto no caminho. Tranquilizei ela, pois tirando alguns bandidos incautos que tentaram me incomodar no caminho, tudo tinha corrido bem e o plano do velho havia funcionado. Eu entreguei o pacote para ela e ela o examinou com cuidado.

– Tem algo errado Luth! A magia que protegia o pacote não está mais ativa. Você a retirou? Disse ela preocupada enquanto me encarava.

– Não mãe! Ainda não tenho poder suficiente para isso. E mesmo que tivesse, porque eu faria uma coisa dessas? Perguntei sem entender muito bem o que acontecia.

– Se você foi treinado tão bem pelo velho, me diga: O que faria uma magia conjurada pelo velho perder o efeito sem ser suprimida? Perguntou ela sondando meu conhecimento.

– Bom, a única coisa que me vem em mente seria ter acontecido algo com quem conjurou a magia… Espera um pouco! Você está me dizendo que aconteceu algo com o velho? Perguntei com cara de espanto.

– Acho difícil, mas não é impossível! Vou comunicar os nossos contatos e ver o que descobrimos. Vou te manter informado assim que souber de algo. Agora termine de comer e depois descanse um pouco, deve estar cansado da viagem. Disse ela claramente preocupada.

Minha missão foi cumprida com sucesso, mas aquele sentimento de dúvida aumentou. Teria acontecido algo com o velho? E Sash como está? Tenho que voltar para a ordem e ver o que aconteceu. Uns quatro dias de descanso aqui serão suficientes para recobrar as energias e talvez conseguir alguma informação de nossos contatos. Depois seguirei ao encontro de Sash. Queria que ela estivesse aqui. Ahh, mas é bom estar em casa!

10. Céus em Chamas

Para minha surpresa tudo parecia do mesmo jeito, salvo por alguns comércios estarem um pouco maiores. Passei na loja do velho Garth que ficava perto da saída da cidade em direção aos vales. Comprei alguns ingredientes alquímicos, uns frascos vazios, um pouco de ácido para anotar alguma magia nova que descobrisse e alguns componentes para minhas magias, afinal eu poderia precisar caso algo errado tivesse realmente acontecido.

Depois disso subi ao monte nos limites da cidade, de onde era possível ter uma visão linda dos Vales. Sash costumava vir aqui para praticar com a ocarina que eu tinha dado, conforme ela me dizia nas cartas. Pensei que talvez pudesse encontra-la aqui, mas não, infelizmente.

Me escorei sobre uma pedra e resolvi ficar contemplando os Vales e olhar em direção ao norte, pensando no que poderia estar acontecendo. Ao olhar para os vales era possível ver os navios passando pela costa ao longe, possivelmente mercantes ou piratas indo em direção à Cormanthor. Dizem que o porto de lá, assim como a costa foi tomada por piratas, restando apenas lembranças do que já tinha sido um dos mais belos portos élficos dos Vales. Depois que os elfos foram para Encontro Eterno, tudo eram apenas ruínas de uma civilização muito mais avançada que a humana, mas que desistiram de guerrear com os humanos pela floresta e se tornaram reclusos em sua terra, onde dizem o lugar tão belo quando a lendária Agrestia das Fadas. Talvez um dia eu tenha a chance de conhecer, eu pensei.

Enquanto estava observando em direção ao norte, o crepúsculo começava a dar lugar para os primeiros raios lunares e belas estrelas. Um céu limpo e sem nuvens. Algo que acalmaria o mais aflito coração, mas que rapidamente foi substituído por um sentimento de temor. Enquanto olhava em direção ao norte era possível ver um brilho de várias cores tomando o céu, como se a natureza estivesse se revoltando contra o norte e os céus estivessem em chamas. Pequenas labaredas caíam do céu em direção ao chão, mas se eram vistas dessa distância, podia apenas imaginar o real tamanho delas. O céu literalmente estava em chamas, assim como algo dentro de mim fervia. Como se meu próprio sangue estivesse sendo queimado por aquelas chamas. Eu estava paralisado.

Enquanto estava tentando processar a situação, senti apenas algo pontiagudo passar ao lado do meu rosto, rasgando minha face levemente e quando acompanhei a direção daquilo, vi apenas uma criatura em pé próxima a floresta, que parou a trajetória da flecha com a mão, extraindo o sangue em sua ponta para um pequeno frasco que ele guardou em uma algibeira. Ele usava uma capa como a minha, e olhos amarelos saíam de dentro daquele capuz para revelar a última pessoa que eu esperava ver naquele momento, mas aquele rosto e habilidade eram inconfundíveis. Só conheço uma pessoa da ordem capaz de disparar uma flecha de uma direção e ter tempo o suficiente para parar a trajetória da mesma flecha do outro lado. Era ele, Fafnir Folha-de-Prata, o lendário herói da nossa ordem. Tentei responder, mas não conseguia, ao olhar para ele, eu pude lembrar das estórias. Se ele estava ali, era provável que eu iria morrer ou coisa pior.

– Você não foi difícil de achar Aril’Tel’Quessir! Precisamos conversar! Disse ele em voz rouca e preocupada.

11. Segredos Ocultos

Não entendi as palavras que ele usou, mas eu estava paralisado para descobrir ou responder, ou raciocinar. Ele se aproximou e quebrou um frasco com líquido verde perto do meu nariz. O cheiro daquilo me fez ficar inconsciente.

Enquanto estava inconsciente fui tomado por sonhos onde via uma mulher com olhos de cinco cores, muito bonita. Ela apontava para os céus e eles começavam a despejar as forças elementais da natureza sobre o norte. Fogo, gelo, relâmpagos, ácido, gases tóxicos. Tudo aquilo que era verde e bonito destruído por todo o Norte. Ela se sentou sobre um trono em uma grande fortaleza e vários demônios, homens e reis se curvavam diante dela. Depois vi um enorme poço cheio de ossos, e daquele buraco saíam diversas criaturas que pareciam tiradas dos piores pesadelos. Quando uma delas me agarrou pelo pescoço, eu despertei assustado. Sentindo como se aquela coisa realmente tivesse me estrangulando.

Quando olhei, estava novamente em casa em meu quarto. Peguei minhas coisas e saí em direção a parte de baixo, mas quando parei nas escadas ouvi vozes do andar de cima. Era a voz da minha mãe. Subi correndo pensando que pudesse ser algum tipo de novidades. Quando entrei na biblioteca, vi ela conversando com Fafnir. Ele se ocultava na escuridão de uma vela ao canto enquanto ela estava chorando segurando uma espécie de pergaminho.

Eu fui na direção de minha mãe e recebi um abraço dela. Naquele momento eu senti que era quase uma despedida. Meu pai chegou logo em seguida e fez o mesmo. Era bom sentir aquele momento, mas eu sabia que algo estava errado. Eles me disseram que Fafnir me trouxe até ali inconsciente e eles trataram de mim, mas que o elfo teria coisas importantes a me dizer e que trazia notícias do Norte. Eu fiquei encarando ele, afinal sempre tinha sido meu herói e motivação. As estórias sobre seus feitos eram lendárias, mas o que traria ele até mim?

– Bom, acomode-se garoto, pois a estória será longa e dolorosa. Disse ele parecendo olhar para o fundo da minha alma.

Ele continuou:

– Uma antiga profecia se cumpriu através da aliança de alguns lordes do Norte com os Zentharim, e uma criatura do caos foi trazida do fundo do abismo. Dizem as lendas que quando isso acontecesse seria o começo do fim. A rainha dos dragões cromáticos Tiamat renasceu para trazer o caos a este mundo. O Norte já sucumbiu a ela, e em breve todos os reinos terão uma escolha: ou se curvam à sua vontade, ou a enfrentam. Apesar de eu acreditar que a segunda opção não será escolhida ou possível. Campos Dourados foi sitiada e tomada em poucos dias e nem toda nossa força foi capaz de parar seus exércitos. Bellurius está desaparecido desde então e a ordem foi dizimada no Norte. Precisamos reagrupar as bases das outras regiões e oferecer suporte aos homens, ou todos iremos sucumbir! Disse ele com ar de pesar e melancolia enquanto dava um gole no vinho à sua frente.

Aquela notícia confirmou minhas suspeitas de que algo havia acontecido, mesmo assim foi como arrancar uma parte de mim. Todas as pessoas que eu conhecia lá haviam perecido ou estavam desaparecidas.

– Mas o que eu tenho a ver com isso tudo? Apesar de eu pertencer à ordem e ser nossa missão proteger os homens, não era aqui que você deveria estar e sim avisando os demais e nos reagrupando! Disse eu atordoado com a notícia.

– Você garoto, é o motivo de eu estar aqui. Eu sempre disse ao velho ser uma ideia estúpida tirar você de lá, mas parece que ele podia ver mais longe do que meus olhos, e isso nos deu alguma vantagem, afinal. Ele lhe entregou um mapa e uma cifra quando saiu de lá, não? Disse ele parecendo saber a resposta.

– Sim, ele me entregou, mas eu já me debrucei sobre aquilo vários dias e não entendi nada. Pensei ser uma brincadeira do velho! Disse eu sem entender nada.

Quando olhei para mesa, vi um monte de livros separados com páginas marcadas. Mas não entendi o que significavam.

– Eu posso ajudar com isso querido, afinal se tem duas coisas de que eu entendo são das loucuras daquele velho e de números. Disse minha mãe olhando para cifra.

Eu me surpreendi com aquilo, mas se mamãe disse que conseguia, eu jamais duvidaria dela. Ela escrutinou aqueles símbolos, números e letras por alguns momentos e me disse que os símbolos se referiam a alguns livros, os números às páginas deles e então tudo fez sentido. Ela marcou as páginas e disse que precisávamos checar o conteúdo. Provavelmente o velho fez aquilo para evitar que alguém que tivesse acesso à mensagem me capturasse e descobrisse seu conteúdo.

O texto dizia o seguinte:

“Há muito tempo, o caos dominou as terras de Faerûn através da Rainha dos dragões cromáticos. Ela tinha ambição de governar os homens através de seus dragões e sua tirania. A filha de IO não contava que os homens ainda tinham uma esperança. Seu irmão, Bahamut, líder bondoso dos dragões metálicos havia feito uma aliança com os elfos, homens e anões e, através de magia e um ritual muito antigo que só os elfos possuíam, conseguiram trancar Tiamat em Avernus para que pagasse pelos seus crimes. Os elfos que ajudaram com o ritual eram conhecidos como Aril’Tel’Quessir, uma palavra élfica para se referir aos Avariel, uma antiga linhagem de elfos alados que foram os primeiros a habitar essas terras e de onde descendem todos os elfos que conhecemos hoje. A magia utilizada se valia de um ritual de sangue que ativava o poder de um antigo Mithal élfico que associado ao poder de algumas relíquias poderiam conseguiram trancar o mal no abismo. Tiamat amaldiçoou os Avariel e disse que mesmo que ela perdesse a batalha ali, seus servos caçariam os Avariel e os destruiriam. Temendo a ameaça, o líder de Encontro Eterno mandou que os Avariel se recolhessem a uma fortaleza das montanhas do Norte, onde jamais seriam encontrados e o segredo estaria guardado. Mas eles não contavam com um traidor. Alguém revelou o local onde estavam os Avariel aos dragões cromáticos, e não demorou muito até que todos eles fossem varridos da existência. Porém, uma esperança floresceu da escuridão. Uma criança nascida da união de um dos Avariel com um Ruar’Tel’Quessir, palavra élfica para se referir aos elfos das estrelas, foi imbuída com o segredo do ritual em seu próprio sangue. Da união dos Avariel com os Elfos das Estrelas surgiram os elfos do sol e da lua que habitam as terras de Faerûn. E o segredo poderia ficar oculto na linhagem de sangue do bebê que escapou à extinção dos Avariel. Com o crescimento da população de elfos do sol e da lua, o feitiço de sangue se diluiu entre as muitas gerações e parecia perdido. Exceto pela última esperança deixada em uma antiga profecia Avariel, que dizia: Quando o Sol e a Lua cruzarem olhares, a linhagem de sangue será reestabelecida, e o sinal do fim dos tempos surgirá no céu novamente. Eles deverão ser preparados para seguir o mapa do velho arsenal, e encontrar a alma presa ao mar e o espirito da terra, para que o segredo seja revelado e o caminho aberto, a fim de que ao fim do caminho, novamente o sangue da antiga aliança indique o caminho para reestabelecer a paz.”

Eu li aquilo com bastante assombro, pois parece que cada fragmento dessa história estava isolado em um livro diferente, por isso nunca fazia sentido para mim. Mas ainda não havia entendido o significado. Foi quando meu pai me olhou e disse:

– Luth, sua mãe descende de elfos assim como eu, e mesmo que fraco, isso também está no nosso sangue, e consequentemente nos seus. Quando vocês nasceram e vimos seus olhos, sabíamos que eram especiais, só não imaginávamos o quanto. Lembra da velha canção que sua mãe cantava para vocês? Foi o velho quem a ensinou. Foi o velho Bellurius que fez o parto de vocês dois, e ao olhar para vocês ele soube que as palavras se encaixavam. Ele alertou sua mãe para observar os sinais, e se fosse o caso, deveria enviar um de vocês até ele, enquanto o outro deveria ficar aqui para não perder a conexão com os homens desta terra. E assim foi feito, assim que vimos o que a conexão entre vocês podia fazer. Você foi treinado pelo velho, e ele confirmou suas suspeitas. Somente um herdeiro de sangue poderia aprender a antiga arte que você aprendeu. Disse meu pai com lágrimas nos olhos e expressão preocupada.

– Além disso você deve encontrar sua irmã, contar a verdade a ela, e dar um jeito de cumprir a profecia. Por isso eu vim garoto. Devo seguir daqui para Encontro Eterno avisar os elfos de lá, talvez precisemos refazer as alianças outrora perdidas. Disse Fafnir me sondando com os olhos.

Eu abracei meus pais, comecei a chorar sem entender porque tudo aquilo tinha que acontecer daquele jeito, mas acima de tudo, porque com a gente? Eu jamais pedi para ser assim, ou nascer desse jeito, eu só queria poder ter Sash aqui comigo agora, ela sim entenderia porque fiquei sem nenhuma resposta para aquelas palavras.

12. O Reencontro

Fafnir passou a noite ali e seguiu seu caminho logo ao amanhecer. Eu ainda não acreditava muito naquilo tudo. Mas quando lembrei dos meus sonhos, aquilo até fazia um pouco de sentido. Eu precisava encontrar Sash mais do que nunca, mas antes, precisava entender o mapa.

Minha mãe me ajudou a desvendar os códigos do mapa e pelo que entendemos ele fazia alguma referência à antiga lenda do Arsenal Élfico perdido em Cormanthor. Lembro de ouvir as estórias de homens que se perderam naquelas terras tentando encontrá-lo, mas que nunca tinham tido sucesso. Se o mapa levava até ele, precisávamos interpretá-lo.

Ao que parece o mapa levava até a floresta que fica no Vale das Vozes Perdidas e tinha algumas metáforas implícitas em certos locais, que faziam referência a alguma informação que só poderia ser vista em épocas especificas do ano, devido aos posicionamentos da luz emanada do sol e da lua. Entendi que essa época se aproximava daqui uma semana, então só saberíamos as informações se estivéssemos lá para ver neste exato momento. Além disso os sinais faziam referência de que o Arsenal era guardado por uma antiga família Drow da casa Jaelre, conhecida por seus negócios escusos e crimes imperdoáveis.

Precisava encontrar Sash logo, então segui a última informação que tínhamos dela, sobre uma Taverna em Sembia. Me despedi dos meus pais, peguei o mapa e segui viagem em busca dela.

Foram dois dias de viagem até lá, e ao que parece Sembia estava bem mais organizada militarmente e o comércio havia crescido. Não foi difícil encontrar a taverna, que ficava no meio do centro da cidade. Parece que Sash estava trabalhando por lá.

Quando entrei pude ver que o local estava cheio, alguns guardas e soldados, alguns homens escusos que pareciam ser piratas jogando cartas e gritando insultos uns aos outros e alguns camponeses. Pelo número de piratas ali, provavelmente algum navio havia atracado há pouco. Procurei por Sash e não a encontrei, mas podia sentir a presença dela não muito longe, apesar de que um sentimento de alegria me tomava, aquele mesmo que eu sentia quando aprontávamos das nossas quando éramos pequenos. Espero que ela não tenha se metido em confusão.

Eu usei minhas habilidades e disfarçadamente subi as escadas que levavam aos quartos da estalagem que ficava no andar de cima da taverna. Fui seguindo meu instinto até que cheguei a porta de um quarto entreaberta. Olhei para dentro e vi que ela estava lá. Nossa como ela estava linda.

Entrei pelo quarto começando a contar uma história, era como costumávamos começar uma conversa, quando percebi que tinham dois homens ali com ela. Ela estava passando maquiagem neles, foi quando entendi o que estava acontecendo. Ela parecia saber que eu me aproximava e seguiu o que estava fazendo após uma saudação. Perguntei se eu precisava me preocupar com aquilo, ela disse que com ela não, mas com eles…

Eu ajudei a levar os caras para fora e peguei uma bolsa que estava com eles, depois que ela me disse o que aconteceu. Eles pareciam piratas e me disseram que aquilo era do chefe deles e eu não poderia pegar. Eu disse que mandassem o chefe deles falar comigo e pedir desculpas pelo que eles tentaram fazer, mas que se insistissem naquilo, entregaria eles a guarda da cidade. Eles acreditaram e, assim que saíram do quarto, eu olhei sério pra Sash e, vendo que ela conseguia sacar cada expressão minha, começamos a rir feito loucos, pois além dos marmanjos terem tomado uma ruim com ela, ainda iam ter que explicar isso para o chefe deles enquanto estavam de maquiagem. É bom ver que algumas coisas nunca mudam.

As gargalhadas levaram a um abraço longo, como um que era prometido há dez anos, e somente então eu me senti completo de novo. A sensação ruim passou, a angústia foi substituída por alegria. Me sentei na cama, peguei uma maçã para comer, atirei uma pra Sash e disse a ela para se sentar, pois tinha algo muito importante para contar para ela.

Depois de falarmos algumas besteiras sobre coisas ocorridas durante esses dez anos, eu contei tudo que aconteceu em casa para ela. Ela podia sentir que eu falava sério, então me disse que precisaríamos de ajuda, e talvez ela soubesse onde encontrar.